Introdução a Bolívia por Homero Carvalho

Hmn, vamos ver. Essa história parou em meio a uma crise pessoal na grande Santa Cruz de La Sierra ainda no comecinho da viagem.

O Mário – o tal fotógrafo tupiniquim com pinta de alemão – apareceu feito uma luz no fim do túnel e após algumas trocas de figurinha de conterrâneos me apresentou a um escritor chileno radicado há alguns anos na Bolívia. O escritor era gente boníssima e tinha uma preocupação comum a parte da classe média boliviana com o futuro da nação sob o governo Evo. Como escrevi antes, Santa Cruz se considera a locomotiva do país — não sem alguma razão — e achava que as coisas iam muito bem do jeio que iam.

Depois de contar parte dos meus planos, ele concordou em me apresentar o escritor e candidato a deputado Homero Carvalho.

Homero morava com a esposa, diplomata, em uma bela casa escondida atrás de muros altos em um bairro de classe média de Santa Cruz. Durante todo o tempo que passei na cidade meus amigos fizeram questão de destacar o quão perigosa ela era. Um pouco do que a gente ouve quando chega ao Rio.

(Licença para uma breve digressão. Peguei agora o livro que ganhei de Homero naquela tarde de apresentação à Bolívia e não pude deixar de sorrir ao ver a dedicatória. “Para Paula Bianchi, la poesia nos salva del olvido.” A poesia, a escrita, nos salva do esquecimento. E eu aqui, deixando o blog às moscas…)

Expliquei que estava chegando ao país e apesar de ter lido bastante sobre ele ainda não conseguia compreender como funcionavam as coisas. Esse foi um sentimento recorrente durante a viagem. Saber-se vizinha mas de costas para os significado da América Latina. Um pouco pelo português, muito pela nossa tremenda ignorância como brasileiros sobre o continente.

Sentei e passei a tarde conversando, melhor, absorvendo o ponto de vista de Homero sobre o que era e é a Bolívia. Candidato pela Alianza Nacional, um partido minoritário, Homero propunha uma terceira via e contou que a divisão no país começa pela territorialidade — oriente/ocidente, altiplano/terras baixas — e passa pela construção histórica do país. Seguem trechos da entrevista:

“A chegada de Evo despertou muita esperança. Se pensava que a chegada dele ia causar um reencontro do Ocidente e Oriente, mas a chegada de Evo acirrou os ódios. Evo representa a maioria da população. É  a primeira vez que a esquerda chega ao poder. A sua grande popularidade se deve ao povo, que se vê refletido nele. O MAS não é um partido marxista lenisnista como prega, mas uma mescla. Nos discursos de Evo ele nunca usa yo, sempre nosostros, nosotros sintimos. É uma tipo de fala que busca corações e mentes e pretende chegar a um número maior de pessoas. Nas terras altas a história da conquista espanhola é sangrenta e se reflete nas falas de Evo, muito rancorosas. Chegaram a escravizar os índios. Chamar alguém de índio é ofensa. Nas terras baixas a conquista se deu por missões jesuíticas, daí que vem os nomes católicos. Também são outros povos, em especial o guarani. As pessoas não se sentem mal em serem chamadas de índios. No oriente não há problema em ser índio.”

Ok, isso ficou um pouco mais hard do que deveria, msa vamos devagar. “A memória é uma ilha de edição.”

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Desculpem

Deixa eu começar este texto pedindo desculpa. Desculpa pelo abandono de absurdos quinze meses, desculpa pela falta de notícias e desculpa também a esse eu de 2009 que fez essa viagem e merecia ter a história no papel.
A culpa foi um pouco da megalomania de querer descrever dia por dia esses Caminhos Bolivianos e um pouco da vida, que apesar de sempre ser citada em escusas esfarrapadas como essa, é expert em nos atropelar.
Posto isso e já que agora tenho que assinar Joaquina prometo tentar continuar essa história, na medida do possível e da memória que restou.

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Dando uma chance à sorte

Uma das partes mais interessantes de se viajar sozinho é se descobrir uma boa companhia. Um suiça de 67 anos que encontrei pelo caminho me disse que nem todos são capazes de ficar sozinhos consigo mesmos por muito tempo.
- É preciso uma força interior muito grande.
Pois bem, na minha primeira manhã em Santa Cruz eu – ainda – não tinha essa força. Mudei pro hotel da frente seduzida pela promessa de internet inclusa na diária plus café da manhã, e além de me deparar com um pãozinho dormido merreca servido com mantequilla e chá descobri que a conexão também não era lá essas coisas. Simplesmente, não conectava. Sozinha no meu quarto atepetado com uma janela que dava para o interior do hotel sem saber pra que lado ir ou o que fazer, chorei. Um choro de raiva e sentimento de impotência. Tinha um país a frente para desvendar e não sabia por onde começar a puxar o fio.
Sendo assim, toquei para o café para pedir ajuda externa, no caso aconselhamento da minha amiga Débora, que acompanhava a viagem do outro lado do lap top em Porto Alegre. Foi só começar a reclamar pra receber uma grande carga de realidade e perceber que não, as coisas não estavam ruins, estavam apenas começando.

Nesses momentos, fica a dica: vá para a rua, para uma praça, um café. Não fique num quarto chorando. Por pior que as coisas estejam, elas não podem começar a melhorar lá dentro. Às vezes, se não sempre, é preciso jogar com o acaso e chamar a sorte.
E a sorte chegou.

Voltei ao hotel decidida a pegar o endereço dos dois maiores jornais da cidade e ir bater na porta das redações baseada na grande irmandade entre jornalista que eu gosto de pensar que existe no mundo. Quando arrisquei meu portunhol com a recepcionista, um hóspede que estava do meu lado resolvendo alguma outra coisa sorriu e disse num português perfeito.
- Tu é brasileira? (ok, talvez ele não tenha usado um tu, mas vamos respeitar a cota de regionalismo no blog)
- Sou. Tu também?
- Siiim!
Em coisa de dois minutos a situação estava resolvida. Sentei com o Mário no hall e contei a minha história – jornalista freelancer, eleições, socorro. Além de brasileiro, paulista e filho de imigrantes alemães, ele também era fotógrafo profissional e tinha amigos na cidade que poderiam me ajudar. Algumas ligações depois eu estava falando com um escritor chileno, que me levou a um candidato a deputado, que me levou ao aeroporto conhecer um candidato à presidência. Mas isso fica para outro post, que esse já está grande o bastante.

Moral da história: antes de espernear e maldizer a ideia de girico que levou você até ali, respire fundo e vá pra rua. É lá que as coisas acontecem.

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Quase São Paulo

Deixei Max e fui pro hotel dormir o sono dos justos – ou de qualquer um que passou 22h sacolejando num trem. Como a exigência era cama, limpeza e água quente a internet ficou em segundo plano na hora de escolher o hotel. Viciada, à noite o lap e eu fomos dar uma voltinha até um café com café, comida e a cereja do bolo: wi-fi, algo que fui descobrindo pelo caminho, não é tão comum assim.

Na maior parte das lan houses que entrei, sempre que pedia se podia conectar o computador  à rede deles a resposta variava entre uma cara de espanto, “mas por que você ia querer isso?”, um simples “não” e desculpas como “é perigoso (para o meu lap top, no caso) e “é muito complicado”.

- O que me lembra. Não achei nenhuma pesquisa sobre isso, mas acredito que o número de computadores pessoais no país não seja muito grande. Em todas as cidades, mesmo as pequenas, a muitas lan houses que costumam estar cheias. As pessoas digitam trabalhos, mandam e-mail e todas essas coisas que você ia preferir fazer em casa lá. -

No café Alexander, uma Starbucks boliviana, aproveitei pra colocar as perninhas pra cima, checar as notícias e curtir o cambio. Com um dólar valendo sete bolivianos, uma dessas saladas chiques, um milk shake e um chá para arrematar saíam por absurdos 25 pesos ou cerca de US$ 3,50 – e isso porque Santa Cruz, comparada ao resto da Bolívia, é considerada cara!

Não cheguei a falar com muita gente além do garçom e da minha salada. Como estava chovendo de leve, havia pouca gente na rua e o café – chuto que por causa da internet e por estar no centro histórico da cidade – tinha 10 estrangeiros para cada dois bolivianos, o que me deixou em um ambiente, digamos, ‘neutro’.

A cena chega a ser clássica entre locais que recebem muitos viajantes: várias pessoas sozinhas hipnotizadas por seus lap tops tomando seus cafés. Pra fazer o povo se mexer, é só cortar a conexão. Chiado geral em várias línguas.

Até aqui nada de Bolívia ou de reportagens. Apenas sinais de fumaça para casa, solidão em grupo e garoa.

Quase São Paulo.

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A chegada a Santa Cruz e o italiano

Não me lembro exatamente onde parei essa história, e vocês vão me desculpar por demorar tanto tempo pra voltar aqui. Disciplina e método, eis duas palavrinhas que raramente andam juntas no meu cotidiano.

O bicho pegou mesmo por causa da quantidade de detalhes que resolvi incluir na história, tornando isso um relato sem fim, mas já que promessa é dívida e não há promessas que devemos nos esforçar para cumprir mais que as que fazemos a nós mesmos, lá vamos nós. Outra e outra vez.

Acredito que nós estávamos chegando em Santa Cruz de La Sierra… A orgulhosa, pulsante, quente e rica Santa Cruz. Cheguei lá após passar vinte e duas horas no trem pensando na vida. Claro que chegou um momento que eu só sabia perguntar pra brasileira a minha frente que horas eram, mas a maior parte desse percurso foi muito agradável. Eu, a janela, a Bolívia e eu. É preciso uma boa dose de paz interior pra ficar sozinho consigo mesmo tanto tempo, e por tempo falo de momentos que vão além de uma viagem de trem, e de certa forma eu cheguei orgulhosa de mim, me sentindo forte e capaz apenas por ter cruzado aquele caminho sozinha. Qualquer vida é maior do que qualquer canção, e 44 horas desde São Paulo eu me sentia a minha própria heroína.

Mas de volta à Bolívia, que esse é o nome e o objetivo do bloguinho. Um pouco menos de duas horas antes do trem chegar a S.C os passageiros já estavam inquietos e agiam como se o apito final fosse soar em cinco minutos. Alguns acordavam com os gritos de café, suco, cunhapê… outros pareciam apenas aliviados pelo fim da viagem. Eu que tinha dormido algumas seqüências de meia hora tinha um pouco dos dois sentimentos.

Aproveitei uma das senhoras que passavam vendendo café da manhã – talvez por ser cedo, talvez por estarmos mais perto da cidade elas usavam uma avental de uniforme e evitavam vender frango, peixe e afins pela primeira vez em todo o percurso – e pedi um leite com chocolate e um pãozinho simpático que me deixou ainda mais feliz depois da primeira mordida quando percebi que além de simpático, aquilo era um pão de queijo com crise de identidade. Um pouco mais duro e desengonçado, mas um pão de queijo (cunhapê para os leigos).

Antes de sair revisei a minha pequena bagagem, que assim como nas viagens que seguiram ia sempre comigo num sistema de segurança particular que apesar de não ser a coisa mais confortável do mundo ao menos me deixava dormir tranqüila – na medida que é possível “dormir tranqüila” com ambulante vendendo coisas ônibus adentro por todo o percurso: Um pé dentro da alça de uma mochila, um pé dentro da outra e a bolsa transpassada, amarrada e no colo. Até hoje minha mãe não entende como consigo viver com uma bolsa que parece mais uma sacola e ainda por cima não tem zíper, mas eu garanto. Se você não tiver o costume de plantar bananeira com ela no pescoço, não tem problema.

Terminei o pão de queijo e, talvez eu não devesse ter esperado tanto para escrever. Me fugiu o nome de um salgado que comi na seqüência. Mas enfim, terminei o pão de queijo, o salgado supostamente com recheio e aguardei a chegada a Santa Cruz olhando pra janela,  esperando um sinal, qualquer sinal daquela cidade que se avizinhava e que devia chegar a qualquer momento depois dos quilômetros e quilômetros de florestas e vilarejos que acompanhei pelo caminho.

Assim como quem desce na rodoviária de Porto Alegre acha a cidade um lixo, que desce na estação de trem de Santa Cruz não tem uma opinião muito diferente. Os arredores são cinzas e sujos, há poucas árvores e muito caos. O suficiente pra me deixar com a sensação de ser uma pulga perdida prestar a ser engolida por aquele lugar. E eu não sou o tipo de pessoa que se sente uma pulga facilmente.

Sabe quando o coração da gente parece que encolhe, dá um aperto no peito e uma vontade de fugir combinada com o pensamento de que ‘diabos eu vim fazer aqui’? Pois era exatamente assim que eu estava me sentindo parada naquela plataforma sem saber pra que lado ir.

Mas enquanto um lado meu entrava em crise, outro agia de forma prática indo atrás do italiano que conheci láaa em Porto Quijarro, exatos 640 km atrás. Ao contrário de mim, que carregava um belo par de olheiras e uma cara que de quem acabou de almoçar um guarda-chuva sem sal, Max parecia exultante com a viagem e tinha um sorriso de orelha a orelha. Mais pra baixo que pra alto, levemente gordinho, um pouco queimado do sol do tempo que passou em Morro de São Paulo e com talvez, não sei, uns quase quarenta anos, ele tinha aquela alegria italiana que quem já encontrou com algum italiano, mesmo que ilegítimo, reconhece de longe. Como se a comida estivesse na mesa esperando a gente junto com um belo vinho e o resto do povo reunido.

Sorri tentando ser simpática e assim disfarçar a nossa impossibilidade comunicativa – até então eu não falava espanhol, ele tão pouco falava português e apesar de ter crescido na Serra o meu italiano não vai além das nonas lá perto de casa – e pedi se podia dar uma olhada naquele guia de viagem sobre a Bolívia que ele tinha me mostrado no começo da viagem e quem sabe assim arranjar um lugar pra ficar (é, eu não fazia idéia de onde iria parar e como não pretendia passar mais que uma ou duas noite ali isso também não me parecia nada grave. Fora que existem hostels por todas as partes e onde cabe um viajante, cabe mais viajante e se não couber alguém sempre sabe indicar algum lugar com uma cama sobrando).

Ele sorriu, falou alguma coisa entre ‘me espera um pouquinho e te vejo lá fora’ que me fez descer do trem, colocar as mãos nos bolsos e voltar pro estado de pulga perdida. Dois minutos depois apareceu o Max, com as suas mochilas e o seu sorriso e quando falei que queria ‘apenas dar uma olhadinha no guia’ ele já tinha feito sinal pra eu ir atrás dele e saiu caminhando pra fora da estação de trem. Falou algo sobre hotel, praça central, boas recomendações e eu repetindo que só queira ver o endereço de um hostel.

A confiança é uma prática e eu pratico bastante. Por isso – e porque ir pro centro parecia mesmo a melhor idéia – peguei um ônibus pro centro com o Max. Custou dois pesos e tudo que a gente precisou fazer foi levantar o braço – aqui não existem paradas muito menos cobradores – pra entrar no tal número 12 que seguia pra Praça indicado pelo guia.

Achando meio estranho o bus ir pro de lado que a gente tinha vindo e que até onde eu me lembrava não parecia muito com um centro, exercitei um pouco mais do meu portunhol e descobri que aquele ônibus ia sim para o centro, só que pra isso era preciso pegar ele do outro lado da rua e em outro sentido. Assim minha primeira viagem no transporte coletivo cruceno teminou 15 metros depois de ter começado.

Atravessamos a rua e dessa vez eu escolhi o ônibus seguindo o meu método de localização e não o guia do Max – perguntei pro motorista. Diga o que disserem, mas guias às vezes servem mais pra confundir que pra localizar.

Chovia em Santa Cruz e eu estava tão cansada que preferi deixar meus deveres jornalísticos de lado e apenas observar a cidade, que caótica e barulhenta fazia cada vez menos sentido.

Meia hora depois descemos no ponto indicado pelo cobrador, que disse que a praça ficava duas quadras à frente. Os prédios baixos e em geral brancos tem aquele estilo colonial espanhol, com aros redondos e janelas pequenas o que correspondia a muita coisa, menos a minha imagem de Bolívia. Mesma coisa as pessoas nas ruas. Morenas, mas não indiiiigenas. Pré-conceitos. Fui quebrando todos a marretadas conforme seguia viagem.

Chegamos a praça. De um lado a catedral que, parando pra pensar agora, nem visitei e nem sei bem porque. Será que estava sempre fechada? Do outro a prefeitura, o conselho municipal, equivalente a nossa câmera de vereadores, o teatro e algumas lojas. No meio um quadrado de concreto, cheio de banquinhos, pombos e canteiros com grama e árvores. O ponto zero da cidade, que é toda desenhada em anéis.

Que ver se encontro o mapa pra colocar aqui, mas todo o caso imaginem um quadradinho. Agora desenhem um círculo ao redor, e outro e outro e por aí vai. Depois um monte de retas cortando os círculos a partir do quadrado. Eis Santa Cruz.

Atravessamos escorregando na pista molhada enquanto o Max falava em 7, 8, 9, 10 dólares. Hotel isso, hotel aquilo, hotel aquele outro. Como o preço de x lugar parecia bacana e ué? Eu ainda não tinha escolhido nenhum? Enquanto eu pensava que tanto fazia desde que tivesse uma cama, um chuveiro quente e, por favor, se não for pedir demais, Internet. Se bem que aquela altura o chuveiro e a cama ganhavam fácil de qualquer outra facilidade.

Apesar da praça ser quadricular e o local aparentemente de fácil localização nos perdemos duas ou três vezes e escorregamos praça dentro mais duas ou três vezes também até localizar a Calle Juan – que ridiculamente saia de uma das pontas da praça – e vários hotéis um em frente ao outro. Dei uma olhada no guia do Max e escolhi dois que pareciam ter o melhor custo benefício e casualmente ficavam um de frente pro outro. Apesar do Internet bem grande escrito num hotel pensei com o bolso e fiquei no da frente, 50 bolivianos, sem café e Internet, mais barato.

Estava pronta pra assinar o chek in quando Max me olhou: tu não vai ver o quarto pra saber se gosta? E subir os quatro andares sem elevadores? Hello. Eles têm uma cama e um chuveiro. Preciso saber de mais alguma coisa? Mas ok, venci a preguiça e fui fazer o reconhecimento. Cama, ok, chuveiro, ok, Tv, não vai fazer diferença, mas ok. Posso me atirar aqui e descansar algumas horas agora?

Assim que disse que tinha aprovado o quarto Max sorriu, pegou as coisas deles e as indicações do senhor da recepção e se despediu de mim. ‘Mas tu não vai ficar em Santa Cruz também?’, perguntei com meu italiano macarrônico? ‘Não, só vim aqui para de deixar no hotel. Vou pra Samaipata ainda hoje.’ (Samaipata, senhores, é uma cidadezinha maravilhosa que fará parte do nosso relato num futuro com sorte não muito distante)

Ele tinha vindo da Bahia, passado por Brasília e viajado quatro dias de ônibus até pegar o trem da morte e não parecia nem um pouco preocupado em parar. Mais, parecia achar normal e corriqueiro fazer a gentileza de me trazer ao hotel e me deixar em segurança. Quase dei um abraço nele, mas estava cansada até pra isso, então apelei pro meu estômago e convidei ele pra almoçar, tomar café da manhã, qualquer coisa. De pseudo-italiana para italiano, se tem alguma forma de agradecimento mundialmente reconhecida entre a nossa raça ela se chama comida.

Fomo ao café Alexander, mais uma vez indicado pelo guia, e que me pareceu ainda melhor quando descobrimos que era na esquina, a uma quadrinha do hotel. Ainda num momento de deslumbramento com o câmbio, pedi um daqueles cafés frescos que custam um belo almoço no Brasil e que eu só costumo pedir quando quem paga a conta tem a mesma descendência consangüínea que eu e uma omelete rancheira.

Conversamos mais um pouco e o Max me contou da vida dele na Itália. Ele mora, bem esqueci essa parte, mas sei que trabalha como sommelier cinco meses por ano e passa o resto do tempo viajando. Ele tinha planejado uma viagem pela América do Sul, da Bolívia a

Costa Rica também de cinco meses, ou eu é que me embananei toda.

Ele nunca tinha vindo a Bolívia, mas guardava um lugar no coração pro Brasil, em especial pra Fortaleza. Eu que tinha recém passado uma semana lá no inverno e me apaixonado pelo lugar ouvi a história com gosto de prato feito a três reais – comida, sempre comida -, sotaque nordestino e baldes de gentileza.

Max me disse que tinha 23 anos na época. De Fortaleza ele foi pra Canoa Quebrada, uma praia linda e não muito longe da capitar, e disse que passou alguns dos melhores dias da vida dele lá. Sempre que alguma coisa vai mal e ele está triste, é só fechar os olhos e lembrar de Canoa Quebrada que fica tudo bem. E enquanto ele disse isso realmente fechou os olhos, colocou as mãos no coração e sorriu de um jeito que até eu consegui perceber como ele foi feliz.

Com meus 22 anos recém feito no bolso, só consegui pensar que queria ter tanta alegria guardada assim algum dia, pra usar quando faltasse fé.

Fim da chegada a Santa Cruz.

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Eleições na Bolívia para além do paralelo 50°

O texto que segue é uma aproximação geral sobre as eleições na Bolívia e o país em si. É muita gente e muita história pra um texto só, mas sigo tentando.


Cholitas cochabambinas descansam após a votação

Cheguei na fronteira entre a Bolívia e o Brasil com uma mala de rodinhas, um laptop e o vago propósito de cobrir as eleições presidenciais. Com quase dez milhões de habitantes e 1,098,581 km² de área, o país é um desses lugares míticos. Adorado pelos mochileiros que buscam as raízes da América Latina, visto como a salvação pela esquerda e excomungado pela direita graças as suas alianças e suposta disposição de seguir o diabo, quer dizer, Chávez e Fidel.

A eleição de Evo Morales para presidente em 2005 fez os vizinhos olharem para o país com mais cuidado – alguns receosos, outros deslumbrados – e a sua reeleição colocou um sinal de alerta no mapa. Índio, líder cocaleiro e parte do novíssimo Movimento ao Socialismo (MAS), Evo era tudo que os últimos governantes do país não eram – parte do povo, o que ainda faz muita gente torcer o nariz.

A natureza já fez questão de dividir o país de começo. De um lado o montanhoso e frio altiplano – estados de La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí e por aí vai -, do outro as quentes e tropicais terras baixas – Santa Cruz, Beni e Pando. Ou ocidente e oriente como o pessoal de lá gosta de chamar. No entanto, essa divisão vai muito além de meia dúzia de picos nevados, refletindo-se na cultura e mais ainda na política do país.

A divisão étnica a gente percebe logo que põe os pezinhos na Bolívia. Mais de 60% da população – o número varia conforme a fonte, sempre pra mais – é indígena. Mas indígena mesmo, de pai, mãe e primeira língua. A divisão política, só se nota com o tempo.

Com a nova Constituição aprovada por referendo no começo do ano passado, o país passou de república a estado plurinacional, reconhecendo a existência de 36 nações – a aymará, a quéchua, a espanhol falante e os povos amazônicos

Pra entender essa história, que ganhou mais um capítulo com a posse de Evo para mais cinco anos de governo no dia 22 de janeiro, decidi correr o país a pé. Ainda na fronteira, comprei uma passagem no famoso “Trem da morte”, rota cult dos mochileiros que seguem pra Machu Pichu e passei minha primeiras horas entre os hermanos na pequena Porto Quijarro, na rabeira das tais terras baixas.

A Bolívia é um dos países mais pobres e menos industrializados da América do Sul e a cidade vive desse mangue que vivem as fronteiras. Algum turismo, algum contrabando, muita pobreza e alguma esperança de sair dali. Um real equivale a 3,7 bolivianos e a maior parte dos habitantes do país equilibram as contas com um pib per capita de cerca de 7.650 reais ao ano.

O trem sozinho merece um parágrafo. São 640 km percorridos em longas 22 horas, passando por aldeias que parecem existir só por causa dele. A cada parada, um desfile. Os passageiros ficam sentados enquanto os ambulantes, quase só mulheres e crianças, sobem vendendo de frango com batatas acomodados em saquinhos a suco de limão direto de baldes e peixe à milanesa em espetos.

Também foi em Porto Quijarro que fui apresentada pela primeira vez a dicotomia cambas e collas, termos básicos do dicionário político-étnico boliviano. Os cambas são os moradores do oriente, os collas do ocidente e uma das acusações preferidas dos detratores de Evo é a de que ele é o responsável pelo aumento do ódio entro os dois.

Mais pra frente essa diferenciação fez bem mais sentido. Por enquanto, era apenas a forma como Mimi, uma professora de inglês boliviana que conheci enquanto esperava o trem me explicar que o prefeito da cidade – um camba – fazia questão de não aceitar nada do governo – encabeçado por um colla, Evo no caso.

Ela dava aula mais por gosto que por salário, já que não via um contracheque há pelo menos seis meses, e suspirava pela escola que poderia ter sido caso o ego do tal prefeito fosse menor que o interesse pelos alunos.

Após chacoalhar bastante e dormir aos gritos de “pollo frito”, cheguei à orgulhosa superpotência Santa Cruz. Diferente de todo o resto, assim como todo o resto é diferente de tudo no país, ela fica no centro das terras baixas. É tropical, quente, plana e também o lugar mais rico da Bolívia, como faz questão de deixar claro sempre que pode.

A cidade é o centro da oposição a Evo e a tensão contra o governo central é quase palpável. Não é difícil encontrar pichações do tipo “Evo, Santa Cruz será a tua tumba” e “Evo assassino”. Algumas pessoas só faltam cuspir quando falam o nome do presidente.

Enquanto no altiplano os espanhóis escravizaram os índios, no oriente a colonização foi jesuítica e bem mais tranqüila além de majoritariamente guarani. “Evo fala de um ressentimento que a gente não tem”, me explicou o escritor Homero Carvalho enquanto desfiava todo o histórico de abandono que os crucenos  fazem questão de trazer à tona sempre que o governo fala em pegar mais um naco do dinheiro do departamento.

A primeira ferrovia de La Paz até a região foi construída apenas em 1956 enquanto o resto das benfeitorias – água, luz e afins – só tomou corpo graças a grupos de cidadãos que se uniam em prol da comunidade. A própria autonomia, confirmada agora em um referendo em dezembro, é uma das bandeiras mais antigas do lugar.

Para a guarda-parque crucena Carola Vacca a diferença é de sentimento. “Nós sentimos diferente, nós pensamos diferente que eles”. Pelas ruas cheguei a ouvir coisas como “não me sinto a vontade lá”, sendo o lá o altiplano, as montanhas, o mesmo “eles” de Carola.

O fotógrafo tupiniquim Mário Friedländer, freqüentador assíduo da Bolívia, me confirmou desanimado o aumento da separação entre cambas e collas desde que Evo entrou no governo em 2005. “O mais triste é que acho que não tem volta”, afirmou Mário.

Mas entre autonomia e separatismo é um pulo. Depois de alguns dias no departamento, o episódio da expulsão do embaixador norte-americano faz bem mais sentido. Pra quem não lembra, em agosto de 2008, o diplomata Philip Goldberg recebeu um ultimato do governo boliviano para deixar o país. Vindo direto de uma temporada no Kosovo, ele foi acusado de participar de reuniões com governadores oposicionistas e incentivar o separatismo.

Também foi em agosto de 2008 que explodiram os episódios que fizeram os analistas internacionais apitarem a proximidade de uma possível guerra civil no país. Em cinco dos nove departamentos, os governadores se rebelaram contra o governo central e se declararam no direito de cumprir ou não a nova constituição, às vésperas da votação na época.

Sedes do governo central foram destruídas e no estado de Pando, em plena Amazônia boliviana, 15 camponeses pró-MAS foram mortos por paramilitares supostamente chefiados pelo governador da região, Leopoldo Fernández. Ele aguarda até hoje por julgamento na prisão de San Pedro, em La Paz. Foi de lá que concorreu a vice-presidência do país nas eleições de dezembro, parte da chapa do ex-prefeito de Cochabamba Manfred Reys Villa.

O massacre deu a deixa para uma intervenção militar na região e até a União de Nações Sul-americana (Unasul) ficou do lado de Evo, que, além disso, recebeu o apoio maciço da população. O que parecia impossível de controlar acabou sendo um dos fatores que levaram a vitória do referendo que ratificou a Constituição em janeiro de 2009 e permitiu a reeleição de Morales no dia 6 de dezembro.

A vitória de Evo era algo tão certo que nem a oposição parecia falar sério quando conclamava os eleitores para o segundo turno. Uma jornalista chegou a ser ameaçada de antipatriótica pelo presidente por insinuar tal possibilidade numa coletiva no dia da eleição.

No entanto, após passar um tempo no “oriente” comecei a duvidar das pesquisas que davam maioria ao MAS e toquei o barco para Cochabamba. No centro geográfico da Bolívia e entre Santa Cruz e a capital, a cidade não deixa de ser um meio termo do país. Foi só sair um pouquinho do centro do departamento para ver os muros e postes passarem do amarelo e vermelho da Convergência de Reys Villa, principal partido de oposição, para o azul do Movimento ao Socialismo. E daí pra frente o caminho foi quase que só azul.

Apesar de Santa Cruz e o resto das terras baixas estarem contra Evo e continuarem, como bem mostrou a eleição – junto com Beni e Pando estes  foram os únicos departamentos em que o MAS perdeu – a região é minoria em termo populacionais. 60% dos bolivianos vivem no altiplano, área em que o MAS tem apoio majoritário, o que torna os votos do oriente importantes, mas não imprescindíveis.

Nas eleições de dezembro, oito partidos concorreram, mas só três chegaram a Assembléia Plurinacional, tamanha a força do MAS. Para presidência, só Reys Villa rabiscou uma chance, ainda assim sendo patrolado pelos 63% dos votos de Evo. Agora o pessoal se concentra nas eleições para governador no começo de abril, tentando conseguir ao menos o controle dos departamentos.

Criado em 2002, o MAS é um saco de gatos. Mistura movimentos sociais, sindicatos e as mais diversas facções da esquerda, além dos espertalhões com timing político. O partido surgiu num momento de renascimento da esquerda boliviana, apagada desde a ditadura, e cresceu vertiginosamente, conquistando em apenas oito anos duas presidências e agora a maioria absoluta do congresso. Nada mal para uma sigla que fez 34 votos na sua primeira eleição em Santa Cruz.

A primeira coisa que a gente nota quando chega à praça central de Cochabamba são os grupinhos de pessoas conversando. Sejam dez da noite ou dez da manhã sempre tem alguém debatendo o seu ponto de vista – contra Evo, a favor de Evo, contra o Chile, a favor do Chile, contra Deus, a favor de Deus… – convertendo a praça numa espécie de ágora latina.

O centro do burburinho são dois painéis cobertos de jornais rabiscados, parte das atividades da Red Tinku, ONG-movimento-de-tudo-um-pouco. Tocada pelo professor Ramiro Saravia a Tinku – “encontro” em quéchua – nasceu em 98, mas ganhou força mesmo durante a guerra da água em 2000. Essa guerra também merece um parágrafo.

Na época a multinacional estadunidense Bechtel Corporation (uma das maiores empresas de engenharia e construção do mundo) havia ganhado uma concessão de 40 anos para prestar serviços de abastecimento de água para cidade numa licitação sem competição. O aumento da tarifa levou a população cochabambina às ruas para impedir a privatização e a morte de um garoto durante as manifestações deu início a uma série de outros protestos em todo o país culminando com a renúncia do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

A Tinku participa de manifestações, vende livros xerocados pra ganhar o dinheiro para comprar os jornais rabiscados no painel e, principalmente, organizam todos os dias debates com o pessoal que passa pela praça. Perto das eleições, o tema era, como não podia deixar de ser, as eleições.

Sentei num dos banquinhos em frente ao painel, parte da sala de aula improvisada. Do meu lado dezenas de homens escutavam atentos enquanto Ramiro tentava explicar a história política boliviana nos últimos anos. Tentava, por que a platéia fazia questão de interromper pra colocar os seus pontos de vista E isso acontece todas as noites, todos os dias!

Ele lembrava a revolução de 52, a ditadura que seguiu, os vinte anos em que os bolivianos obedeceram calados e a revolução da entrada de Evo. Morales é vista como um símbolo que vai além do seu rosto pintado por paredes e muros de todo o país. Nos comícios que participei o presidente tinha a recepção de um rock star e bastava suspirar pro povo aplaudir.

Antes de ir a La Paz resolvi dar uma passadinha no Chapare. Parte do trópico cochabambino, a região é famosa pelas belezas naturais, por não ser muito receptiva a jornalistas e pelas plantações de coca. Foi lá que Evo nasceu como sindicalista e é lá que fica também o coração do MAS.

A principal cidade é a comunidade de Vila Tunari, um amontoado de casas ao redor de uma rodovia que segue reto até a Argentina. Na falta de postes, as bandeiras azuis do partido são penduradas nas árvores. No entanto, nem todo apoio é natural. Os sindicalizados são gentilmente convidados para contribuir na campanha e aqueles que se recusam recebem sanções, como me explicou André, morador da vila. É assim também que o MAS garante comícios sempre lotados.

Além das bandeiras, a coca também está por todas as partes. No nome dos hotéis, em vasos em frente às casas, secando em lonas à beira da estrada. Não é difícil encontrar pessoas mascando folhas e o mate de coca é parte integrante do cardápio de qualquer café.

Da Vila, tomei um táxi em direção a uma base norte-americana de combate às drogas desativada. Acabei numa plantação de coca. Assim como 70% da população do país, o taxista que me levou até lá, Agapiro, é agricultor e quando não está trabalhando na rodovia ajuda a família na lavoura – de arroz, palmito e coca.

A plantação de coca da família de Agapiro tem mais ou menos o tamanho de uma quadra de vôlei, máximo permitido pelo governo. A planta da coca tem mais ou menos um metro e meio de altura, lembra uma folhagem e cresce sem precisar de cuidados. Enquanto um palmito vale dois bolivianos, 50 libras de coca passam fácil dos mil. O taxista diz que vende direto para um mercado na cidade e não faz idéia de pra onde as folha vão depois.

A coca é um dos pontos recorrentes das críticas contra Evo, chamado de narcotraficante para baixo. O presidente acumula os cargos de presidente da Bolívia e do sindicato de cocaleiros de Cochabamba. Desde 2005, quando assumiu, as plantações cresceram e a repressão diminuiu. Segundo o senador eleito Adolfo Mendoza, o que o governo prega não é a coca, mas a cocaína zero em referência ao lema do governo anterior que praticava uma política de extermínio da planta.

Cultivada há milênios na região andina, a coca é usada pra enfrentar desde a altitude até a indigestão e é parte integrante da cultura boliviana. Mendoza diz que há um estudo em andamento para saber exatamente quanto a população boliviana consome de folhas e quanto é o excedente. E é contra esse excedente que o governo pretende lutar.

De lá segui para a capital. Encravada no meio dos Andes, a cidade de La Paz dá um nó na cabeça do visitante de primeira viagem. Primeiro, pelos mais de 3.500 metros de altitude, suficientes pra lembrar a qualquer um a beleza de respirar a beira mar e fazer as células clamarem por oxigênio. Depois, pelas ruas que se cruzam em infinitas subidas e descidas.

Assim como boa parte da Bolívia, Nuestra Señora de La Paz lembra um grande mercado a céu aberto.  As ruas são lotadas de mulheres em trajes típicos vendendo de tudo um pouco. Entre as três quadras que separavam a lan house do hotel, eu podia comprar de meias, a comida, fazer uma plaquinha oferecendo meus serviços de jornalista e ainda trocar uns dólares para viagem.

Elas sustentam a casa e boa parte da economia do país que, assim como o Brasil, tem um grau muito alto de informalidade. Numa esquina do centro da cidade, conversei com a dona Cláudia Cali. Ela criou os seis filhos vendendo mantas na rua e hoje, com 67 anos, ainda mantém a mesma rotina. Acorda cedo, espalha o artesanato e, seja segunda, domingo ou feriado, passa das sete da manhã às oito da noite em busca de clientes.

Dona Cláudia também faz parte dos 63% de eleitores que votaram em Evo e que acham que o cambio estava indo bem. O cambio, “mudança” em castelhano, slogan do MAS, foi o principal ponto da campanha presidencial que podia se resumir a estar contra ou a favor de Evo, já que em termos de propostas nenhum lado parecia ter muito o que dizer.

A nova Constituição obriga a mudança da maior parte das leis bolivianas e é nelas que o povo todo está de olho. O Congresso, agora com a maioria do MAS, vai ser o responsável direto pelo “cambio” ou não do país.

Como La Paz torce pelo Evo até a medula, perto das eleições, decidi regressar a Cochabamba e aproveitar para respirar melhor também. Digamos que Bolívia em dia de eleição é Bolívia em estado de sítio. Da meia noite da sexta-feira até o fim do domingo da votação estavam proibidos beber, portar armas de fogo e até circular entre os departamentos! Mesmo na cidade, somente carros com autorização da corte eleitoral podiam trafegar e a polícia, que é só uma, manteve-se em peso nas ruas.

Na manhã da eleição, só havia policiais e pessoas de bicicletas pelas calçadas o que graças ao uniforme verde dos oficiais passava a impressão de que o exército havia tomado a cidade. Mesmo almoçar era difícil, já que todo o comércio estava fechado.

A justificativa é que assim se garante que as pessoas votem. Apesar da nova constituição tornar o voto obrigatório, as sanções por pular o pleito – bloqueio do cpf, proibição de viajar de avião e por ai vai – não chega a atingir o grosso da população que em sua maioria não tem nem conta bancária.

No fim, não havia muito o que esperar. Mesmo a oposição estava conformada. O boato mais quente era de que Reys Villa, segundo colocado nas pesquisas, iria dar no pé assim que conseguisse uma passagem com o nome dele pra Miami.

Cheguei a conversar com o candidato da convergência logo depois de ele colocar seu voto na caixinha. Reys Villa me garantiu, zombateiro, que ‘claro, estava com as malas prontas’ e depois emendou sério que tudo isso fazia parte da tática fascista de intimidação do MAS e que não arredaria pé da Bolívia de jeito nenhum.

A votação começou as 8h, mas não foi preciso ir além das 15h pra se dar a vitória a Morales. As apostas se mantinham no congresso. O MAS mantinha a confiança na maioria de dois terços, enquanto a oposição rezava pra conseguir impedir isso ao menos no Senado.

Evo, que tomou posse no fim de janeiro, não tem uma tarefa simples. Precisa calar a oposição e fazer jus aos votos da população, que, ao colocar o MAS na presidência e na maioria do congresso, lhe deu um cheque em branco pra mudar o país. Precisa também lidar com os índices que colocam a Bolívia como um dos países mais pobres e pouco desenvolvidos da América Latina.

O dia terminou na praça lotada em frente a sede do partido. O hino da Bolívia se misturava a música de campanha do MAS. Enquanto algumas pessoas choravam de felicidade, outras iam atrás de compensar a lei seca com chica, a bebida tradicional do país, e pacenã, a maior cerveja da região. O pessoal cantava, dançava e de certa forma esperava que o tal ‘cambio’ tão prometido fosse mais que uma promessa.

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Santa Cruz 640 km

Pros que duvidavam que esse blog ia sobreviver ao natal, ano novo e início das férias não-remuneradas (jo, por ex.), voltamos! Ainda tentando chegar em Santa Cruz, sair de Santa Cruz, chegar em La Paz, sair de Porto Alegre e por aí vai. Um mês e três dias depois de ter retornado da Bolívia de todos os santos, cá estamos para seguir com a lista-história sem fim-you choose das pessoas do caminho.

Há boatos que “a memória é uma ilha de edição”, a minha no caso tá com todo o material guardado esperando pra ser decupado – ok, exagerei no jornalisdiquês*.

Puxando pelos fiozinhos de onde tínhamos parados acho que faltou tratar dos meus coleguinha de viagem no famigerado Trem da Morte – 22 HORAS de viagem, só pra deixar lembrar. Pra não dizerem que esqueci a galerinha que sentou do meu lado segue uma lista rápida do people:

Vista geralzinha do "trem da morte" antes de lotar

Bem do ladinho mesmo, de dividir água, kit porcaria de viagem e pedidos de que horas são sentou a… não lembro o nome, mas era uma guria bem com cara de guria de 19 anos. Ela viajava rumo a La Paz junto com uma amiga, que tava sentada no banco do corredor ao lado, e uma mulher de uns 30 e poucos, sentada no banco logo trás. Todas trabalhavam como costureiras em Sampa city, um dos lugares com a maior população boliviana fora da Bolívia no mundo. E pra quem acha 22 horas é muito, é só pensar que até a capital elas iam fechar nada mais nada menos que três dias chacoalhando on the road.

Enquanto a amiga dela usava um all star botinha preto e tinha aquele jeito “vê-se-não-enche” ela viajava tranquilona, de haivanas e camisetão, ria de tudo e me pedia se a gente tava chegando a cada meia hora (pronto, mãe. Paguei meu carma por ter infernizado a senhora em todas as viagens de busão que fizemos junto dos 8 aos 18  - e paguei bem).

A la onde está Wally. Nas grota, nas street, num meio de um trem no meio do nada. O google tá a caminho, mas a Coca já dominou o mundo. Olhando bem da pra ver o All Star da moçoila também.

Pausa pra reflexão. Durante o meu mês e pouquinho de observações antropológicas bolivianas in loco – e antes que alguém me acuse de ser de um etnocentrismo preconceituoso descarada lembro que mantenho as O.A sempre ativadas, seja na esquina de casa em Porto Alegre city ou no meio da Avenida Paulista (o que não significa que elas não possam ser etnocentricas, só que não são descaradas) – não me lembro de ter visto mais que um ou dois adolescentes de All Star.

Na verdade, malemal me lembro de ter visto “Adolescentes “pelo caminho. Sabe, aqueles com o Adolê escrito bem grande na testa. Teorizo que aqui – como no Brasil que não é de classe média, não tem carro comprado a prestação na garagem e não viaja pra zooropa, ou seja, como no Brasil real – essa fase não vai dos 13 aos 30 e o cara ajoelho tem que rezar. Trabalhar pra viver, no caso.

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Já a mulher do banco de trás, apesar de boliviana, tinha um jeito mais brasileiro e falava num portunhol meio exibido. Ela morava no Brasil há 15 aninhos e tava indo pra La Paz visitar a família. Por jeito brasileiro falo de um característica meio difícil de explicar mas que a gente que é assim,tupiniquim desde guri, reconhece de longe. Eu diria que a chave é o sorriso e não é. Sei não, tergiverso.

Jo sei, jo sei. Como tenho coragem de chamar esse tratado de “lista rápida”? Respira fundo e vai firme, benhê, que o fim está próximo. Essa história de que internet é lugar de texto curto é intriga da oposição.

Garoto oferecendo refrigerante pro povo que tava na janela do trem

Voltando pra nossa história, que sendo escrita com todo o jeitinho brasileiro que só o Brasil tem chega com um mês de delay, e que, se ainda quiser ser lida, é melhor que termine logo, muita gente olha torto pra esses bolivianos que parecem esquecer da língua e dos costumes como a moça do banco de trás da adolê. Meio que rola um sentimento de primo rico-primo pobre.

Como um real é o equivalente a 3,7 bolivianos muita gente sustenta a família que ficou por essas bandas com a grana que ganha trabalhando no Brasil. E muita gente também se acha melhor por isso. Alguém aí conhece alguém que se f%&# trabalhando nos States nos empreguinhos mais simples que existem e quando volta adora se vangloriar porque além de viver no “primeiro mundo” ainda ganha em dólar? Por aí.

Além da adole, da moça do havaianas e da mulher do banco de trás- na falta de nomes, Saramago** na veia – na minha frente também tinha uma brasileira que mora em Santa Cruz há sete anos e um advogado. O cara não me deu trela, agora com a mulher deu pra bater um bom papo que com a moça do havaianas tava impossibilitado pela minha falta de espanhol e a falta de português dela – junto com a adoles, ela tinha fechado um ano de Brasil. Mas um ano de Brasil só entre costureiros bolivianos não é bem um ano de Brasil, ao menos não o suficiente pra dominar Camões.

Mulher vende comida pra passageiros esfomeados

Antes de parar em Santa Cruz a brasileira já tinha corrido 25 dos 26 estados brasileiros, faltando, ironicamente, só o Rio Grande do Sul que parece que desse ano não passa. Morou no Amapá, em Roraima, Rondônia e segue a lista. Aos 16 anos, recém casada, caminhava seis km todos os dias com um filhinho pela mão e outro na barriga pra ir dar aula numa escola no meio da Amazônia enquanto o marido inventava de desbravar a floresta.

Dava aula numa casa de pau-a-pique sem divisórias pra umas cinco séries diferentes que dividia pelos cantos da sala enquanto tentava não enlouquecer. Se aposentou funcionária pública e foi receber os primeiros reajustes no contra-cheque de pensionista pouco antes da reeleição de Lula e uns meses depois de ter mandado uma carta-desabafo pro presidente, explicando tim tim por tim tim do que é mesmo que é feito o Brasil, conforme ela mesma me explicou.

Aposentada, foi parar na Bolívia há sete anos ainda atrás do marido, que sempre em busca de um novo Eldorado resolveu ser minerador na Amazônia além da fronteira. Ela tava só esperando o fim da faculdade dos filhos – a filha faz odontologia e o filho engenharia de petróleo – pra zarpar de volta pro seu “querido Paraná”, como fazia questão de ressaltar. Tinha dado um pulo em Corumbá pra refazer a identidade perdida não sabia bem onde e me jurava de pé junto que nunca mais tomava aquele trem maldito.

Brasileira compra mangas pena janela

Ok, ok. Parei por aqui. Lembrando que prolixo é a mãe (a tua, não a minha). E tenho dito! Um dia a gente chega a Santa Cruz. Prometo.

* Ilha de edição é o local onde a galera corta, cola e constrói as imagens que a gente vê por aí. Muito filme é salvo nesse lugarzinho mágico. Decupar é pegar o material bruto de uma filmagem, por exemplo, e identificar as partes relevantes.
** O Saramago é um escritor português que não costuma nomear os seus personagens. Quem viu o filme baseado no livro Ensaio sobre a cegueira deve lembrar da  “mulher de óculos escuros”, do “médico”, da “mulher do médico”, etc. A exceção, além do Evangelho segundo Jesus Cristo, é o livro Todos os nomes em que o personagem principal se chama José. Mas como José é também o Saramago e há tantos Josés pelo mundo o nome acaba por ser um não nome.

*** Fotos: Paula Bianchi, ora pois.

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