January 15, 2010

Santa Cruz 640 km

Pros que duvidavam que esse blog ia sobreviver ao natal, ano novo e início das férias não-remuneradas (jo, por ex.), voltamos! Ainda tentando chegar em Santa Cruz, sair de Santa Cruz, chegar em La Paz, sair de Porto Alegre e por aí vai. Um mês e três dias depois de ter retornado da Bolívia de todos os santos, cá estamos para seguir com a lista-história sem fim-you choose das pessoas do caminho.

Há boatos que “a memória é uma ilha de edição”, a minha no caso tá com todo o material guardado esperando pra ser decupado – ok, exagerei no jornalisdiquês*.

Puxando pelos fiozinhos de onde tínhamos parados acho que faltou tratar dos meus coleguinha de viagem no famigerado Trem da Morte – 22 HORAS de viagem, só pra deixar lembrar. Pra não dizerem que esqueci a galerinha que sentou do meu lado segue uma lista rápida do people:

Vista geralzinha do "trem da morte" antes de lotar

Bem do ladinho mesmo, de dividir água, kit porcaria de viagem e pedidos de que horas são sentou a… não lembro o nome, mas era uma guria bem com cara de guria de 19 anos. Ela viajava rumo a La Paz junto com uma amiga, que tava sentada no banco do corredor ao lado, e uma mulher de uns 30 e poucos, sentada no banco logo trás. Todas trabalhavam como costureiras em Sampa city, um dos lugares com a maior população boliviana fora da Bolívia no mundo. E pra quem acha 22 horas é muito, é só pensar que até a capital elas iam fechar nada mais nada menos que três dias chacoalhando on the road.

Enquanto a amiga dela usava um all star botinha preto e tinha aquele jeito “vê-se-não-enche” ela viajava tranquilona, de haivanas e camisetão, ria de tudo e me pedia se a gente tava chegando a cada meia hora (pronto, mãe. Paguei meu carma por ter infernizado a senhora em todas as viagens de busão que fizemos junto dos 8 aos 18  - e paguei bem).

A la onde está Wally. Nas grota, nas street, num meio de um trem no meio do nada. O google tá a caminho, mas a Coca já dominou o mundo. Olhando bem da pra ver o All Star da moçoila também.

Pausa pra reflexão. Durante o meu mês e pouquinho de observações antropológicas bolivianas in loco – e antes que alguém me acuse de ser de um etnocentrismo preconceituoso descarada lembro que mantenho as O.A sempre ativadas, seja na esquina de casa em Porto Alegre city ou no meio da Avenida Paulista (o que não significa que elas não possam ser etnocentricas, só que não são descaradas) – não me lembro de ter visto mais que um ou dois adolescentes de All Star.

Na verdade, malemal me lembro de ter visto “Adolescentes “pelo caminho. Sabe, aqueles com o Adolê escrito bem grande na testa. Teorizo que aqui – como no Brasil que não é de classe média, não tem carro comprado a prestação na garagem e não viaja pra zooropa, ou seja, como no Brasil real – essa fase não vai dos 13 aos 30 e o cara ajoelho tem que rezar. Trabalhar pra viver, no caso.

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Já a mulher do banco de trás, apesar de boliviana, tinha um jeito mais brasileiro e falava num portunhol meio exibido. Ela morava no Brasil há 15 aninhos e tava indo pra La Paz visitar a família. Por jeito brasileiro falo de um característica meio difícil de explicar mas que a gente que é assim,tupiniquim desde guri, reconhece de longe. Eu diria que a chave é o sorriso e não é. Sei não, tergiverso.

Jo sei, jo sei. Como tenho coragem de chamar esse tratado de “lista rápida”? Respira fundo e vai firme, benhê, que o fim está próximo. Essa história de que internet é lugar de texto curto é intriga da oposição.

Garoto oferecendo refrigerante pro povo que tava na janela do trem

Voltando pra nossa história, que sendo escrita com todo o jeitinho brasileiro que só o Brasil tem chega com um mês de delay, e que, se ainda quiser ser lida, é melhor que termine logo, muita gente olha torto pra esses bolivianos que parecem esquecer da língua e dos costumes como a moça do banco de trás da adolê. Meio que rola um sentimento de primo rico-primo pobre.

Como um real é o equivalente a 3,7 bolivianos muita gente sustenta a família que ficou por essas bandas com a grana que ganha trabalhando no Brasil. E muita gente também se acha melhor por isso. Alguém aí conhece alguém que se f%&# trabalhando nos States nos empreguinhos mais simples que existem e quando volta adora se vangloriar porque além de viver no “primeiro mundo” ainda ganha em dólar? Por aí.

Além da adole, da moça do havaianas e da mulher do banco de trás- na falta de nomes, Saramago** na veia – na minha frente também tinha uma brasileira que mora em Santa Cruz há sete anos e um advogado. O cara não me deu trela, agora com a mulher deu pra bater um bom papo que com a moça do havaianas tava impossibilitado pela minha falta de espanhol e a falta de português dela – junto com a adoles, ela tinha fechado um ano de Brasil. Mas um ano de Brasil só entre costureiros bolivianos não é bem um ano de Brasil, ao menos não o suficiente pra dominar Camões.

Mulher vende comida pra passageiros esfomeados

Antes de parar em Santa Cruz a brasileira já tinha corrido 25 dos 26 estados brasileiros, faltando, ironicamente, só o Rio Grande do Sul que parece que desse ano não passa. Morou no Amapá, em Roraima, Rondônia e segue a lista. Aos 16 anos, recém casada, caminhava seis km todos os dias com um filhinho pela mão e outro na barriga pra ir dar aula numa escola no meio da Amazônia enquanto o marido inventava de desbravar a floresta.

Dava aula numa casa de pau-a-pique sem divisórias pra umas cinco séries diferentes que dividia pelos cantos da sala enquanto tentava não enlouquecer. Se aposentou funcionária pública e foi receber os primeiros reajustes no contra-cheque de pensionista pouco antes da reeleição de Lula e uns meses depois de ter mandado uma carta-desabafo pro presidente, explicando tim tim por tim tim do que é mesmo que é feito o Brasil, conforme ela mesma me explicou.

Aposentada, foi parar na Bolívia há sete anos ainda atrás do marido, que sempre em busca de um novo Eldorado resolveu ser minerador na Amazônia além da fronteira. Ela tava só esperando o fim da faculdade dos filhos – a filha faz odontologia e o filho engenharia de petróleo – pra zarpar de volta pro seu “querido Paraná”, como fazia questão de ressaltar. Tinha dado um pulo em Corumbá pra refazer a identidade perdida não sabia bem onde e me jurava de pé junto que nunca mais tomava aquele trem maldito.

Brasileira compra mangas pena janela

Ok, ok. Parei por aqui. Lembrando que prolixo é a mãe (a tua, não a minha). E tenho dito! Um dia a gente chega a Santa Cruz. Prometo.

* Ilha de edição é o local onde a galera corta, cola e constrói as imagens que a gente vê por aí. Muito filme é salvo nesse lugarzinho mágico. Decupar é pegar o material bruto de uma filmagem, por exemplo, e identificar as partes relevantes.
** O Saramago é um escritor português que não costuma nomear os seus personagens. Quem viu o filme baseado no livro Ensaio sobre a cegueira deve lembrar da  ”mulher de óculos escuros”, do “médico”, da “mulher do médico”, etc. A exceção, além do Evangelho segundo Jesus Cristo, é o livro Todos os nomes em que o personagem principal se chama José. Mas como José é também o Saramago e há tantos Josés pelo mundo o nome acaba por ser um não nome.

*** Fotos: Paula Bianchi, ora pois.

December 21, 2009

Bolívia way of drinking

De balde e compartindo, benhê! Esse líquido amarelinho aí é a milenar Chica, a bebida oficial da bolívia. Trata-se de um preparado, em geral de milho, fermentado o que dá a bebida uma leve lembrança de vinho. Antigamente a galera não tinha com o que fermentar e usava cuspe e outras coisas menos mencionáveis (xixi, xixi!). A quem diga que usam até hoje…

Depende a região ela pode ser um refresco ou uma forma de tomar um porre. Após provar a chicha em Santa Cruz – geladinha e nada alcóolica -, me enganei feio e aceitei um convite para beber o troço em Cochabamba. Me esquivei de virar o balde graças ao relativismo cultural do amigo jornalista que me levou na festa em bati essa foto.

A chica também é uma bebida sagrada, usada desde os tempos dos incas nos rituais para falar ou simplesmente agradecer Deus. No dia em que fui presa, o pessoal entornava feliz e coletivamente – a tradição manda encher um porongo, beber, encher de novo e oferecer a alguém próximo – baldes de chicha.

Agora a lei seca dois dias antes das eleições faz um pouco mais de sentido, não?

December 17, 2009

No trem

Continuando com a lista das pessoas do caminho, o que a essa altura do campeonato já virou uma questão de honra… Como eu ia dizendo há uns muitos posts atrás, em P.Q conheci Mimi, a professora de inglês que não falava inglês. Pouco antes do trem e ainda no horário brasileiro, chamei a moça pra almoçar pra retribuir a hospitalidade. Claro que na hora eu nem me dei por conta que era meras 10 e meia da manhã pra ela…
Por indicação do irmão taxista – ao contrário de mim, ela segue as recomendações de não comer na rua-, sentamos em um boteco furreca às voltas da estação. Olhar a cozinha fez meu estômago gritar ‘não quero mais nada não, moça’ mas preferi ignorar. Já estava ali, o caminho ia ser longo (22 HORAS de trem, pra quem esqueceu) e se fosse pra bancar a nojentinha era melhor nem ter saído de Sampa town. O que me lembra, limpo é um dos melhores adjetivos que alguém pode usar pra se referir a um restaurante boliviano.
Comemos um arroz carreiteiro duvidoso que tinha um nome que é claro passava bem longe de arroz carreteiro duvidoso, mas depois de quase dois meses do começo da viagem peço aos amigos perdão pela falta do dado. Curiosidade culinária, esse arroz é o prato típico number one de todas as terras baixas bolivianas. Pra acompanhar, um ovo frito estrelado e suco de linhaça. Sim, aquela sementinha que a gente encontra com frequência na comida natureba. Branquinho e doce, o suco até que era bem gostoso, ao contrário do arroz. Se o se estômago disser algo, escute. Simples assim. E eu não vou falar nada da panela cercada de moscas e do fato de que os pratos são lavados num balde e enxaguados no outro.
De lá partimos finalmente pra estação, onde eu tentei me comunicar num portunholinglish com o italiano, que tão pouco falava português, inglês ou espanhol. A Mimi ficou meio tímida e piorou ainda mais quando um cara de La Paz entrou na conversa. Nesse momento tive uma dessas sensações branco colonizadoras vergonhosas que me acompanharam no comecinho da viagem (a outra foi o terceiro mundo feeling constante). O cara era índio, vistosamente índio, e estava vestido como “branco”, falando de igual pra igual com a gente e tal e coisa. E nisso não me apredejem, não quero dizer que índios não são iguais aos outros cidadãos nem nada assim. Só que os anos de separação e tutelamento que o estado impôs aos nossos índios por aqui torna difícil separar o status índio da pessoa. Ao menos a primeira vista.
Anyway, conversamos um pouco e eu e o italiano partimos para o “Trem da Morte” e vou te dizer, ali eu já comecei a querer ficar pelo caminho. Pobreza com água e luz é uma coisa, a pobreza de P.Q era daquela que dói.
Uma vez no trem, abanei pra Mimi e segui pra esquerda enquanto o italiano foi pro vagão da direit. Tinham me falado tanto do tal do trem que eu esperava encontrar cabras nos corredores e pessoas deitadas no chão – parece que em épocas mais procuradas a gente encontra mesmo -, mas no lugar disso dei de cara com um vagão simples, com duas poltronas de cada lado do corredor que lembrava bastante o interior de um ônibus fuleiro. Me acomodei na janela curtindo o aguaceiro que começou a cair segundos depois que embarcamos. Até Santa Cruz o clima ia seguir assim, verde e tropical. Bem menos boliviano do que a minha imaginação, focada em tocas de orelinha e lhamas esperava.
Segue…

December 15, 2009

O diabo e as minas de Potosí

Seguindo a tradição de posts aleatórios, eu vi o Diabo, coisa ruim, belezebu, aquele-que-não-deve-ser-nomeado na Bolívia. E ele até que que pareceu simpático, com olhos de bolinha de gude, sentadinho no meio de uma mina em Potosí. Culpa do Galeano, que depois de ter saído do lugar escreveu As veias abertas da américa latina. Não dava pra sair do país sem passar por lá.

A cidade de Potosí, capital do departamento, fica a pataquada de 3.967 de altitude, podendo chegar a 4,600 em alguns pontos o que torna respirar uma experiência interessante. O lugar foi um dos mais ricos do mundo o que a gente nota facinho quando caminha pelas ruas calçadas cercadas de casas coloniais caprichadas. No auréos tempos, tinha mais gente Potosí que em Paris e Londres. Mas foi. É só sair do centro pra dar de cara com uma grande favela-bairro que cobre as montanhas sem árvores que formam a cidade e a Bolívia, de certa forma. O país é hoje o segundo mais pobre da América do Sul.

Cerro de Potosí e a cidade ao longe, dando tchauzinho

O cerro de Potosí também é um dos lugares que melhor representa a exploração que a América Latina sofre. A montanha é um dos lugares mais explorados do mundo. Reza a lenda que com a prata que foi tirada de Potosí dava pra construir facinho uma ponte entre a cidade e a Coroa, em Madrid.

José, a entrada da mina e a lanterna

Entrei na mina guiada pelo José, um garoto nascido e criado nas redondezas que apesar de ter me dito que tem 18 anos não deve passar dos quinze. Ele está fazendo aulas de inglês e francês e agora trabalha como guia, mas já tentou a vida como mineiro assim como boa parte dos homens da região – mina é clube do bolinha, mulher não entra. Encontrei algumas separando pedras, mas do lado de fora.

Como não tem luz, as pessoas usam cintas ou capacetes com lanternas. O meu passeio não era cinco estrelas. Eu fiquei com o capacete e o José com a lanterna. Mais que o escuro e a falta de ar, eu estava morrendo de medo que ele me largasse no meio daquele labirinto e fosse feliz da vida contar pros amigos como passou a perna numa gringa. Por segurança, agarrei a mão dele e só larguei quando vi a luz no fim do túnel – literalmente.

A mina é mais ou menos como essas que a gente vê na TV. Um conjunto de corredores escuros em que se tem que caminhar agachado, com cabos golpeando oxigênio para dentro e trabalhadores encurvados. Não vi nenhum trilho do trem e carrinhos, mas isso deve ser mais para dentro ou ser coisa de mina de TV mesmo.

O diabo eu encontrei lá pelo meio do passeio, num corredor. Os mineiros são politeístas e acham que deus não chega nas minas, então por via das dúvidas acreditam nele até entrar e no “Tio”, como a estátua é carinhosamente chamada, do escuro em diante. Parece que ele também era uma forma de assustar os espanhóis, tremendamente católicos. Por via das dúvidas, o meu guia deu umas folhinhas de coca pro moço e seguimos o passeio.

No começo eram os espanhóis, depois os bolivianos ricos e hoje são os próprios mineiros da região em um sistema de pseudo cooperativa que se ocupam de tirar o que restou do lugar. Cada mineiro passa ao menos oito horas por dia nos corredores de escuridão infinita do cerro pra ganhar cerca de 500 pesos por semana, um pouco mais de 130 reais, mas um belo salário em termos de Bolívia. Mas como a cooperativa está só no nome, quem produzir ganhar, quem não produzir corre atrás na próxima semana.
É incrivel e cruel que mais de 400 anos e cerca de oito milhões de mortos depois as minas sigam funcionando – e rendendo.

December 15, 2009

E agora José

A viagem terminou, mas o blog não. Até porque uma viagem nunca acaba quando termina. Ainda estou com a Bolívia e o mundo pulsando bem forte no peito. Diz o mestre Kap. que algumas pessoas são tomadas por uma espécie de infecção viajeira, que só passa na estrada. Here I am.
Sendo assim, vocês ainda ouviram falar da Mimi, da política boliviana, da minha prisão e do que mais a memória tiver guardado e eu tiver paciência de escrever.

December 9, 2009

Querida oposiçao

Eu sei, eu sei. Como vai a Mimi? Bem, espero. Mas este post é pra falar de um pedacinho do domingo, antes que ele desapareça. Depois a gente volta no tempo e embarca no trem da morte até Santa Cruz de La Sierra. Prometo.
Terminada a cobertura das eleiçoes, que teve um fim um pouco trágico (pra mim, nao pro país) – a Bolívia em dia de eleiçoes é o mesmo que a Bolívia em estado de sítio. Tem lei seca, os carros ficam proibidos de circular e a polícia toma as ruas. Pras ces terem uma idéia me fizeram descer de um carro de uma rede de TV daqui que tinha autorizaçao pra circular porque eu nao tinha credencial (depois consegui uma credencial da PAT pra ver se paravam de me torrar a paciência, mas daí ninguém me pediu mais nada. Murphy, alguém?).
O mais emocionante do domingo foi perguntar pro Manfred Reys Villa, segundo colocado, se ele ia fugir do país na segunda de manha. Contexto: na falta de propostas, tanto o governo quanto a oposiçao resolveram partir para acusaçoes, e acusaçoes no minimo estapafurdias. Um grupo de mulheres da Convergência resolveu fazer greve de fome na frente da corte eleitoral porque supostamente o MAS (movimento ao socialismo) teria escrito um milháo de eleitores fantasmas. Já do lado do governo, alguém deixou vazar uma passagem pra Miami no nome do Manfred, gentilmente marcada pra o day after das eleicoes.
Com todo o seu bigode e postura de bombom – o cara foi prefeito de Cochabamba durante a guerra da água, e, na época, uma jornalista escreveu que tinha um “bombom” na prefeitura, o que levou a senhora Manfred a prestar contas com a moça e o marido – sorriu e disse que sim, que estava indo embora na primeira hora. Depois completou que isso era tonteria da oposiçao, e que ele nao tinha nada nem ninguém a temer.
A chapa da Convergência podia muito bem ser apelidada de chapa 171. Contra o Manfred correm acusaçoes de desvio de dinheiro público durante o seu governo como prefeito – além de que ter sido a pessoa que autorizou a privatizaçao da água em Cocha nao melhora muito o curriculo – e fontes seguras me confirmaram que o gajo também aproveitava a folha da prefeitura pra pagar, por exemplo, o jardineiro da sua mansao. Já o ex-candidato a vice e ex-governador de Pando, Leopoldo Fernandez, fez campanha da prisáo de Sao pedro em La paz onde espera desde setembro do ano passado ser julgado por supostamente ser o mandante da chacina que matou 16 camponeses no departamento que governava.
É por essas e por outras – o Tribunal Constitucional, o nosso Surpremo, por exemplo, foi completamente descabeçado pelo governo e os decretos sáo a forma mais corrente de aprovar leis – que a oposiçao acusa Evo de sapatear em cima do Estado de direito. Agora que o MAS ganhou o congresso com maioria de dois terços esse argumento morre e provavelmente a galera daqui pra frente vai acusar o governo de ditadura mesmo – mas antes disse é preciso lembrar que quem elegeu o MAS como maioria foi o povo boliviano, e que em instituiçoes democráticas nao há nada mais democrático que o voto.
Eles também devem estar com medo da lei de transparência de fortunas, que vai abrir a caixa preta de todos os políticos – Evo e o seu vice, García Linera, já coloram suas contas bancárias a disposiçao de quem quiser bisbilhotar.
Mas esse é um assunto pra outro post. Vou-me agora, que o bus para a Copacabana boliviana me chama.
Hasta!

Pra deixar a coisa um poquinho mais completa. Além do Manfred da Convergência, também concorria com alguma força Samuel Doria Medina, fundador do partido Uniao Nacional. Ex-ministro do planejamento, Samuel é dono do Burger King na Bolívia e de uma das maiores empresas de cimento do país. A proposta dele para colocar a “Bolívia a trabalhar” – o desemprego é um dos ponto mais atacados pela oposiçao e um dos principais problemas bolivianos – era simples. Transformar o país no maior produtor e alimentos orgânicos do continente. Claro que para isso seria melhor se ele deixasse de exportar as batatas e vegetais dos seus sanduíches…

December 7, 2009

Joaquina hablando

(post escrito em pc boliviano. Corrigirei a ortografia, corrigirei…)

Como eu ia dizendo às moscas que frequentam esse bloguinho, a caminho do rio náo turìstico de P.Q encontrei uma boliviana chamada Mimi. Mas coo ontem foi ontem e hoje a memòria está melhor, ates da Mimi é bom mencionar que troquei menos de uma dúzia de palavras com um italiano que também esperava o trem da morte. O suficiente pra que ele tomasse conta da minha mala de rodinhas por um tempinho. Ok, back to Mimi. Professora de inglês naquele fim de mundo, me perdoem os moradores da cidade, ela náo tinha muito com quem praticar e ao me ver suspeitou do jeito yanke da minha lata e achou que tinha encontrado alguém pra praticar. Apesar de eu passar bem longe do sangue anglosaxáo, tinha mesmo. Aquela altura do campeonato eu preferia mil vezes hablar em inglês com alguém que arriscar um portunhol. Vestígios de Montevídeo e Buenos Aiers onde bons amigos riram da minha cara por tentar e me deixaram suficientemente constragida pra achar que nao tinha jeito pra isso – é, sintam-se culpados.
Mimi falava um inglês tímido e náo muito conjugado e vivia repetindo que a prática leva a prefeiçao. Apesar de ter passado cinco anos estudando em Cochabamba, uma das maiores cidades daqui e onde escrevo estas linhas, ela fez questáo de voltar e há seis meses dava aulas num dos dois colégios da cidade. E a seis meses nao recebia por isso. “Alguém tem que se preocupar com as crianças”, explicou, sem nem um tom de veja como eu tenho um grande coraçao. Apenas como alguém que tem um grande coraçao.´
A descriçao do colégio, que eu só lembrei de pedir pra olhar com o trem estava quase saindo, era o Serra no inferno tocando tambor. Uma sala pequena, com telhado de zinco em que quarenta alunos se apertavam para aprender o To Be. Isso quando o tempo ajudava. Se fazia calor – e sempre fazia calor – era impossível dar aula à tarde . Nem ela nem os alunos conseguiam prestar atençao. E se por acaso náo fizesse calor, mas chovesse as aulas também eram cancelada.Era quarta-feira e naquela semana ela só tinha dado uma aula.
O governo até construiu outra escola, bacaninha, com salas largas e grandes janelas azuis, mas náo adiantou muito. Além de ter lugar só pros alunos do segundo grau a maior parte do pessoal prefere o outro colégio, mais perto. Pra piorar, parece que i prefeito da cidade associa Evo ao diabo prefere manter os alunos fritando a aceitar dinheiro federal para fazer outro prèdio e assim permitir que todas as crianças de P.Q estudem num local decente.
Desse jeito, o que sobra pra galera trabalhar na regiáo é o turismo. A maioria dos moradores ou é taxista – caso de todos os quatro irmáos da Mimi – ou vendedor de tudo e qualquer coisa na rua, uma profissáo bem comum por aqui.
Outro dia tomando um café com um israelense, que pode ou nao aparecer por aqui, depende de como estiver a minha memória até que esses relatos cheguem a La Paz, comentou que a Bolívia é um grande mercado a céu aberto. E é. Náo há indùstrias, táo pouco trabalho e a populaçao se vira do jeito que pode. Entre as três quadras que me separam do hotel eu posso tanto fazer um lanche, quanto renovar meu vestuàrio, comprar uma escova de dentes pra viagem e ligar pra casa pra dizer que estou viva e respirando. Isso sem entrar em uma loja sequer.
Voltando a Mimi, eu posso nao ter visto a escola mas vi a sua casa. Na mataçao de tempo entre a hora de pegar o trem e a decpeçao por descobrir que havia um rio, que ele até era bonitinho, mas que nao tinha jeito de chegar perto dele sem atravessar um mini lixáo, a acompanhei enquanto buscava dinheiro pra enviar pro pai que estava cá em Cocha. Admito, náo fotografei a casinha porque fiquei com vergonha de parecer indelicada. Baixinha e de material, o lugar eram como três quatros grudados. O da Mimi tinha uma cama com colcha de florzinhas, uma mesa com uma TV de girar o botáo que parecia pb, umas roupas num cantinho e só. Paupèrrimo é apelido.
Pedi para ir ao banheiro e ela me indicou um galpáo de madeira nos fundos. Desviei algumas crianças ranhentas que brincavam no chao, dei holas pra umas duas moças que conversavam por perto e entrei. O lugar era meio banheiro meio depósito. Tinha madeira, ferramenta, de tudo um pouco. O vaso era um vaso normal, só que sem tampa com um papel higiênico rosa pinkáo do lado e no lugar da pia, uma bacia também rosa com um negóio de metal improvisado que ao mesmo tempo que segurava ela, segurava um espelho.
De novo esse relato ficou mais comprido do que deveria. I will be back, ou náo.
Hasta!

December 7, 2009

Pra quem não leu o jornal

O Evo venceu, e venceu com arrasadores 63% dos votos. Com isso, o MAS ganhou além da presidência o congresso com maioria de dois terços o que lhe permite fazer o que quiser sem precisar da oposição.
O que por uma lado pode parecer um perigo para a democracia e afins por outro é o povo exercendo radicalmente o seu direito de escolha. Nessa eleição participaram CINCO milhões de pessoas, um milhão e meio a mais que na última, graças a um novo sistema se preocupou em registrar todas as pessoas capazes de votar.
Em cinco anos a Bolívia pode tanto virar uma ditadura quanto fazer uma revolução. Eu voto pela revolução e fiquei de voltar aqui daqui um tempinho pra dar uma olhada.

December 4, 2009

Evo de nuevo

Faltam menos de 48 horas pras eleiçoes bolivianas – ou pras reeleiçao do Evo, que só náo leva essa se tiver um ataque do coraçao no caminho. Fora um que outro barraco – uma greve de fome da convergencia em La Paz, por causa dos supostos um milháo de eleitores fantasmas cadastrados aqui, uma passagem só de ida do Manfred pra Miami que alguém deixou vazar acidentalmente ali – o clima é de conformismo. Sáo poucos os que realmente acreditam num segundo turno.

Enquando os 60% da populaçao que apoiam o MAS estáo eufóricos, contando votos pra fechar a maioria de 2 terços no congresso, o resto do pessoal balança a cabeça pensando no desfuturo do país. Com a nova Constituiçao quase todas as leis bolivianas vao ter que ser reescritas, o que torna o Congresso a bola da vez. E a pelea é deputado a deputado.

December 3, 2009

Nada de novo no front

Acho que eu sou uma das poucas jornalistas estrangeiras por aqui. Se bobear, a única brasileira. Tá todo mundo tão certo que o Evo vai ganhar que não tem nem graça. A dúvida é se ele vai conseguir a maioria do Congresso ou não. E pra falar bem a verdade, não duvido que consiga.