O diabo e as minas de Potosí

Seguindo a tradição de posts aleatórios, eu vi o Diabo, coisa ruim, belezebu, aquele-que-não-deve-ser-nomeado na Bolívia. E ele até que que pareceu simpático, com olhos de bolinha de gude, sentadinho no meio de uma mina em Potosí. Culpa do Galeano, que depois de ter saído do lugar escreveu As veias abertas da américa latina. Não dava pra sair do país sem passar por lá.

A cidade de Potosí, capital do departamento, fica a pataquada de 3.967 de altitude, podendo chegar a 4,600 em alguns pontos o que torna respirar uma experiência interessante. O lugar foi um dos mais ricos do mundo o que a gente nota facinho quando caminha pelas ruas calçadas cercadas de casas coloniais caprichadas. No auréos tempos, tinha mais gente Potosí que em Paris e Londres. Mas foi. É só sair do centro pra dar de cara com uma grande favela-bairro que cobre as montanhas sem árvores que formam a cidade e a Bolívia, de certa forma. O país é hoje o segundo mais pobre da América do Sul.

Cerro de Potosí e a cidade ao longe, dando tchauzinho

O cerro de Potosí também é um dos lugares que melhor representa a exploração que a América Latina sofre. A montanha é um dos lugares mais explorados do mundo. Reza a lenda que com a prata que foi tirada de Potosí dava pra construir facinho uma ponte entre a cidade e a Coroa, em Madrid.

José, a entrada da mina e a lanterna

Entrei na mina guiada pelo José, um garoto nascido e criado nas redondezas que apesar de ter me dito que tem 18 anos não deve passar dos quinze. Ele está fazendo aulas de inglês e francês e agora trabalha como guia, mas já tentou a vida como mineiro assim como boa parte dos homens da região – mina é clube do bolinha, mulher não entra. Encontrei algumas separando pedras, mas do lado de fora.

Como não tem luz, as pessoas usam cintas ou capacetes com lanternas. O meu passeio não era cinco estrelas. Eu fiquei com o capacete e o José com a lanterna. Mais que o escuro e a falta de ar, eu estava morrendo de medo que ele me largasse no meio daquele labirinto e fosse feliz da vida contar pros amigos como passou a perna numa gringa. Por segurança, agarrei a mão dele e só larguei quando vi a luz no fim do túnel – literalmente.

A mina é mais ou menos como essas que a gente vê na TV. Um conjunto de corredores escuros em que se tem que caminhar agachado, com cabos golpeando oxigênio para dentro e trabalhadores encurvados. Não vi nenhum trilho do trem e carrinhos, mas isso deve ser mais para dentro ou ser coisa de mina de TV mesmo.

O diabo eu encontrei lá pelo meio do passeio, num corredor. Os mineiros são politeístas e acham que deus não chega nas minas, então por via das dúvidas acreditam nele até entrar e no “Tio”, como a estátua é carinhosamente chamada, do escuro em diante. Parece que ele também era uma forma de assustar os espanhóis, tremendamente católicos. Por via das dúvidas, o meu guia deu umas folhinhas de coca pro moço e seguimos o passeio.

No começo eram os espanhóis, depois os bolivianos ricos e hoje são os próprios mineiros da região em um sistema de pseudo cooperativa que se ocupam de tirar o que restou do lugar. Cada mineiro passa ao menos oito horas por dia nos corredores de escuridão infinita do cerro pra ganhar cerca de 500 pesos por semana, um pouco mais de 130 reais, mas um belo salário em termos de Bolívia. Mas como a cooperativa está só no nome, quem produzir ganhar, quem não produzir corre atrás na próxima semana.
É incrivel e cruel que mais de 400 anos e cerca de oito milhões de mortos depois as minas sigam funcionando – e rendendo.

1 Comment

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One response to “O diabo e as minas de Potosí

  1. Carol, mana

    cagada, fico com medo que te pasassem a perna então!

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