No trem

Continuando com a lista das pessoas do caminho, o que a essa altura do campeonato já virou uma questão de honra… Como eu ia dizendo há uns muitos posts atrás, em P.Q conheci Mimi, a professora de inglês que não falava inglês. Pouco antes do trem e ainda no horário brasileiro, chamei a moça pra almoçar pra retribuir a hospitalidade. Claro que na hora eu nem me dei por conta que era meras 10 e meia da manhã pra ela…
Por indicação do irmão taxista – ao contrário de mim, ela segue as recomendações de não comer na rua-, sentamos em um boteco furreca às voltas da estação. Olhar a cozinha fez meu estômago gritar ‘não quero mais nada não, moça’ mas preferi ignorar. Já estava ali, o caminho ia ser longo (22 HORAS de trem, pra quem esqueceu) e se fosse pra bancar a nojentinha era melhor nem ter saído de Sampa town. O que me lembra, limpo é um dos melhores adjetivos que alguém pode usar pra se referir a um restaurante boliviano.
Comemos um arroz carreiteiro duvidoso que tinha um nome que é claro passava bem longe de arroz carreteiro duvidoso, mas depois de quase dois meses do começo da viagem peço aos amigos perdão pela falta do dado. Curiosidade culinária, esse arroz é o prato típico number one de todas as terras baixas bolivianas. Pra acompanhar, um ovo frito estrelado e suco de linhaça. Sim, aquela sementinha que a gente encontra com frequência na comida natureba. Branquinho e doce, o suco até que era bem gostoso, ao contrário do arroz. Se o se estômago disser algo, escute. Simples assim. E eu não vou falar nada da panela cercada de moscas e do fato de que os pratos são lavados num balde e enxaguados no outro.
De lá partimos finalmente pra estação, onde eu tentei me comunicar num portunholinglish com o italiano, que tão pouco falava português, inglês ou espanhol. A Mimi ficou meio tímida e piorou ainda mais quando um cara de La Paz entrou na conversa. Nesse momento tive uma dessas sensações branco colonizadoras vergonhosas que me acompanharam no comecinho da viagem (a outra foi o terceiro mundo feeling constante). O cara era índio, vistosamente índio, e estava vestido como “branco”, falando de igual pra igual com a gente e tal e coisa. E nisso não me apredejem, não quero dizer que índios não são iguais aos outros cidadãos nem nada assim. Só que os anos de separação e tutelamento que o estado impôs aos nossos índios por aqui torna difícil separar o status índio da pessoa. Ao menos a primeira vista.
Anyway, conversamos um pouco e eu e o italiano partimos para o “Trem da Morte” e vou te dizer, ali eu já comecei a querer ficar pelo caminho. Pobreza com água e luz é uma coisa, a pobreza de P.Q era daquela que dói.
Uma vez no trem, abanei pra Mimi e segui pra esquerda enquanto o italiano foi pro vagão da direit. Tinham me falado tanto do tal do trem que eu esperava encontrar cabras nos corredores e pessoas deitadas no chão – parece que em épocas mais procuradas a gente encontra mesmo -, mas no lugar disso dei de cara com um vagão simples, com duas poltronas de cada lado do corredor que lembrava bastante o interior de um ônibus fuleiro. Me acomodei na janela curtindo o aguaceiro que começou a cair segundos depois que embarcamos. Até Santa Cruz o clima ia seguir assim, verde e tropical. Bem menos boliviano do que a minha imaginação, focada em tocas de orelinha e lhamas esperava.
Segue…

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