Santa Cruz 640 km

Pros que duvidavam que esse blog ia sobreviver ao natal, ano novo e início das férias não-remuneradas (jo, por ex.), voltamos! Ainda tentando chegar em Santa Cruz, sair de Santa Cruz, chegar em La Paz, sair de Porto Alegre e por aí vai. Um mês e três dias depois de ter retornado da Bolívia de todos os santos, cá estamos para seguir com a lista-história sem fim-you choose das pessoas do caminho.

Há boatos que “a memória é uma ilha de edição”, a minha no caso tá com todo o material guardado esperando pra ser decupado – ok, exagerei no jornalisdiquês*.

Puxando pelos fiozinhos de onde tínhamos parados acho que faltou tratar dos meus coleguinha de viagem no famigerado Trem da Morte – 22 HORAS de viagem, só pra deixar lembrar. Pra não dizerem que esqueci a galerinha que sentou do meu lado segue uma lista rápida do people:

Vista geralzinha do "trem da morte" antes de lotar

Bem do ladinho mesmo, de dividir água, kit porcaria de viagem e pedidos de que horas são sentou a… não lembro o nome, mas era uma guria bem com cara de guria de 19 anos. Ela viajava rumo a La Paz junto com uma amiga, que tava sentada no banco do corredor ao lado, e uma mulher de uns 30 e poucos, sentada no banco logo trás. Todas trabalhavam como costureiras em Sampa city, um dos lugares com a maior população boliviana fora da Bolívia no mundo. E pra quem acha 22 horas é muito, é só pensar que até a capital elas iam fechar nada mais nada menos que três dias chacoalhando on the road.

Enquanto a amiga dela usava um all star botinha preto e tinha aquele jeito “vê-se-não-enche” ela viajava tranquilona, de haivanas e camisetão, ria de tudo e me pedia se a gente tava chegando a cada meia hora (pronto, mãe. Paguei meu carma por ter infernizado a senhora em todas as viagens de busão que fizemos junto dos 8 aos 18  – e paguei bem).

A la onde está Wally. Nas grota, nas street, num meio de um trem no meio do nada. O google tá a caminho, mas a Coca já dominou o mundo. Olhando bem da pra ver o All Star da moçoila também.

Pausa pra reflexão. Durante o meu mês e pouquinho de observações antropológicas bolivianas in loco – e antes que alguém me acuse de ser de um etnocentrismo preconceituoso descarada lembro que mantenho as O.A sempre ativadas, seja na esquina de casa em Porto Alegre city ou no meio da Avenida Paulista (o que não significa que elas não possam ser etnocentricas, só que não são descaradas) – não me lembro de ter visto mais que um ou dois adolescentes de All Star.

Na verdade, malemal me lembro de ter visto “Adolescentes “pelo caminho. Sabe, aqueles com o Adolê escrito bem grande na testa. Teorizo que aqui – como no Brasil que não é de classe média, não tem carro comprado a prestação na garagem e não viaja pra zooropa, ou seja, como no Brasil real – essa fase não vai dos 13 aos 30 e o cara ajoelho tem que rezar. Trabalhar pra viver, no caso.

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Garoto a caminho da entrada do trem pra vender limonada

Já a mulher do banco de trás, apesar de boliviana, tinha um jeito mais brasileiro e falava num portunhol meio exibido. Ela morava no Brasil há 15 aninhos e tava indo pra La Paz visitar a família. Por jeito brasileiro falo de um característica meio difícil de explicar mas que a gente que é assim,tupiniquim desde guri, reconhece de longe. Eu diria que a chave é o sorriso e não é. Sei não, tergiverso.

Jo sei, jo sei. Como tenho coragem de chamar esse tratado de “lista rápida”? Respira fundo e vai firme, benhê, que o fim está próximo. Essa história de que internet é lugar de texto curto é intriga da oposição.

Garoto oferecendo refrigerante pro povo que tava na janela do trem

Voltando pra nossa história, que sendo escrita com todo o jeitinho brasileiro que só o Brasil tem chega com um mês de delay, e que, se ainda quiser ser lida, é melhor que termine logo, muita gente olha torto pra esses bolivianos que parecem esquecer da língua e dos costumes como a moça do banco de trás da adolê. Meio que rola um sentimento de primo rico-primo pobre.

Como um real é o equivalente a 3,7 bolivianos muita gente sustenta a família que ficou por essas bandas com a grana que ganha trabalhando no Brasil. E muita gente também se acha melhor por isso. Alguém aí conhece alguém que se f%&# trabalhando nos States nos empreguinhos mais simples que existem e quando volta adora se vangloriar porque além de viver no “primeiro mundo” ainda ganha em dólar? Por aí.

Além da adole, da moça do havaianas e da mulher do banco de trás- na falta de nomes, Saramago** na veia – na minha frente também tinha uma brasileira que mora em Santa Cruz há sete anos e um advogado. O cara não me deu trela, agora com a mulher deu pra bater um bom papo que com a moça do havaianas tava impossibilitado pela minha falta de espanhol e a falta de português dela – junto com a adoles, ela tinha fechado um ano de Brasil. Mas um ano de Brasil só entre costureiros bolivianos não é bem um ano de Brasil, ao menos não o suficiente pra dominar Camões.

Mulher vende comida pra passageiros esfomeados

Antes de parar em Santa Cruz a brasileira já tinha corrido 25 dos 26 estados brasileiros, faltando, ironicamente, só o Rio Grande do Sul que parece que desse ano não passa. Morou no Amapá, em Roraima, Rondônia e segue a lista. Aos 16 anos, recém casada, caminhava seis km todos os dias com um filhinho pela mão e outro na barriga pra ir dar aula numa escola no meio da Amazônia enquanto o marido inventava de desbravar a floresta.

Dava aula numa casa de pau-a-pique sem divisórias pra umas cinco séries diferentes que dividia pelos cantos da sala enquanto tentava não enlouquecer. Se aposentou funcionária pública e foi receber os primeiros reajustes no contra-cheque de pensionista pouco antes da reeleição de Lula e uns meses depois de ter mandado uma carta-desabafo pro presidente, explicando tim tim por tim tim do que é mesmo que é feito o Brasil, conforme ela mesma me explicou.

Aposentada, foi parar na Bolívia há sete anos ainda atrás do marido, que sempre em busca de um novo Eldorado resolveu ser minerador na Amazônia além da fronteira. Ela tava só esperando o fim da faculdade dos filhos – a filha faz odontologia e o filho engenharia de petróleo – pra zarpar de volta pro seu “querido Paraná”, como fazia questão de ressaltar. Tinha dado um pulo em Corumbá pra refazer a identidade perdida não sabia bem onde e me jurava de pé junto que nunca mais tomava aquele trem maldito.

Brasileira compra mangas pena janela

Ok, ok. Parei por aqui. Lembrando que prolixo é a mãe (a tua, não a minha). E tenho dito! Um dia a gente chega a Santa Cruz. Prometo.

* Ilha de edição é o local onde a galera corta, cola e constrói as imagens que a gente vê por aí. Muito filme é salvo nesse lugarzinho mágico. Decupar é pegar o material bruto de uma filmagem, por exemplo, e identificar as partes relevantes.
** O Saramago é um escritor português que não costuma nomear os seus personagens. Quem viu o filme baseado no livro Ensaio sobre a cegueira deve lembrar da  “mulher de óculos escuros”, do “médico”, da “mulher do médico”, etc. A exceção, além do Evangelho segundo Jesus Cristo, é o livro Todos os nomes em que o personagem principal se chama José. Mas como José é também o Saramago e há tantos Josés pelo mundo o nome acaba por ser um não nome.

*** Fotos: Paula Bianchi, ora pois.

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