Eleições na Bolívia para além do paralelo 50°

O texto que segue é uma aproximação geral sobre as eleições na Bolívia e o país em si. É muita gente e muita história pra um texto só, mas sigo tentando.


Cholitas cochabambinas descansam após a votação

Cheguei na fronteira entre a Bolívia e o Brasil com uma mala de rodinhas, um laptop e o vago propósito de cobrir as eleições presidenciais. Com quase dez milhões de habitantes e 1,098,581 km² de área, o país é um desses lugares míticos. Adorado pelos mochileiros que buscam as raízes da América Latina, visto como a salvação pela esquerda e excomungado pela direita graças as suas alianças e suposta disposição de seguir o diabo, quer dizer, Chávez e Fidel.

A eleição de Evo Morales para presidente em 2005 fez os vizinhos olharem para o país com mais cuidado – alguns receosos, outros deslumbrados – e a sua reeleição colocou um sinal de alerta no mapa. Índio, líder cocaleiro e parte do novíssimo Movimento ao Socialismo (MAS), Evo era tudo que os últimos governantes do país não eram – parte do povo, o que ainda faz muita gente torcer o nariz.

A natureza já fez questão de dividir o país de começo. De um lado o montanhoso e frio altiplano – estados de La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí e por aí vai -, do outro as quentes e tropicais terras baixas – Santa Cruz, Beni e Pando. Ou ocidente e oriente como o pessoal de lá gosta de chamar. No entanto, essa divisão vai muito além de meia dúzia de picos nevados, refletindo-se na cultura e mais ainda na política do país.

A divisão étnica a gente percebe logo que põe os pezinhos na Bolívia. Mais de 60% da população – o número varia conforme a fonte, sempre pra mais – é indígena. Mas indígena mesmo, de pai, mãe e primeira língua. A divisão política, só se nota com o tempo.

Com a nova Constituição aprovada por referendo no começo do ano passado, o país passou de república a estado plurinacional, reconhecendo a existência de 36 nações – a aymará, a quéchua, a espanhol falante e os povos amazônicos

Pra entender essa história, que ganhou mais um capítulo com a posse de Evo para mais cinco anos de governo no dia 22 de janeiro, decidi correr o país a pé. Ainda na fronteira, comprei uma passagem no famoso “Trem da morte”, rota cult dos mochileiros que seguem pra Machu Pichu e passei minha primeiras horas entre os hermanos na pequena Porto Quijarro, na rabeira das tais terras baixas.

A Bolívia é um dos países mais pobres e menos industrializados da América do Sul e a cidade vive desse mangue que vivem as fronteiras. Algum turismo, algum contrabando, muita pobreza e alguma esperança de sair dali. Um real equivale a 3,7 bolivianos e a maior parte dos habitantes do país equilibram as contas com um pib per capita de cerca de 7.650 reais ao ano.

O trem sozinho merece um parágrafo. São 640 km percorridos em longas 22 horas, passando por aldeias que parecem existir só por causa dele. A cada parada, um desfile. Os passageiros ficam sentados enquanto os ambulantes, quase só mulheres e crianças, sobem vendendo de frango com batatas acomodados em saquinhos a suco de limão direto de baldes e peixe à milanesa em espetos.

Também foi em Porto Quijarro que fui apresentada pela primeira vez a dicotomia cambas e collas, termos básicos do dicionário político-étnico boliviano. Os cambas são os moradores do oriente, os collas do ocidente e uma das acusações preferidas dos detratores de Evo é a de que ele é o responsável pelo aumento do ódio entro os dois.

Mais pra frente essa diferenciação fez bem mais sentido. Por enquanto, era apenas a forma como Mimi, uma professora de inglês boliviana que conheci enquanto esperava o trem me explicar que o prefeito da cidade – um camba – fazia questão de não aceitar nada do governo – encabeçado por um colla, Evo no caso.

Ela dava aula mais por gosto que por salário, já que não via um contracheque há pelo menos seis meses, e suspirava pela escola que poderia ter sido caso o ego do tal prefeito fosse menor que o interesse pelos alunos.

Após chacoalhar bastante e dormir aos gritos de “pollo frito”, cheguei à orgulhosa superpotência Santa Cruz. Diferente de todo o resto, assim como todo o resto é diferente de tudo no país, ela fica no centro das terras baixas. É tropical, quente, plana e também o lugar mais rico da Bolívia, como faz questão de deixar claro sempre que pode.

A cidade é o centro da oposição a Evo e a tensão contra o governo central é quase palpável. Não é difícil encontrar pichações do tipo “Evo, Santa Cruz será a tua tumba” e “Evo assassino”. Algumas pessoas só faltam cuspir quando falam o nome do presidente.

Enquanto no altiplano os espanhóis escravizaram os índios, no oriente a colonização foi jesuítica e bem mais tranqüila além de majoritariamente guarani. “Evo fala de um ressentimento que a gente não tem”, me explicou o escritor Homero Carvalho enquanto desfiava todo o histórico de abandono que os crucenos  fazem questão de trazer à tona sempre que o governo fala em pegar mais um naco do dinheiro do departamento.

A primeira ferrovia de La Paz até a região foi construída apenas em 1956 enquanto o resto das benfeitorias – água, luz e afins – só tomou corpo graças a grupos de cidadãos que se uniam em prol da comunidade. A própria autonomia, confirmada agora em um referendo em dezembro, é uma das bandeiras mais antigas do lugar.

Para a guarda-parque crucena Carola Vacca a diferença é de sentimento. “Nós sentimos diferente, nós pensamos diferente que eles”. Pelas ruas cheguei a ouvir coisas como “não me sinto a vontade lá”, sendo o lá o altiplano, as montanhas, o mesmo “eles” de Carola.

O fotógrafo tupiniquim Mário Friedländer, freqüentador assíduo da Bolívia, me confirmou desanimado o aumento da separação entre cambas e collas desde que Evo entrou no governo em 2005. “O mais triste é que acho que não tem volta”, afirmou Mário.

Mas entre autonomia e separatismo é um pulo. Depois de alguns dias no departamento, o episódio da expulsão do embaixador norte-americano faz bem mais sentido. Pra quem não lembra, em agosto de 2008, o diplomata Philip Goldberg recebeu um ultimato do governo boliviano para deixar o país. Vindo direto de uma temporada no Kosovo, ele foi acusado de participar de reuniões com governadores oposicionistas e incentivar o separatismo.

Também foi em agosto de 2008 que explodiram os episódios que fizeram os analistas internacionais apitarem a proximidade de uma possível guerra civil no país. Em cinco dos nove departamentos, os governadores se rebelaram contra o governo central e se declararam no direito de cumprir ou não a nova constituição, às vésperas da votação na época.

Sedes do governo central foram destruídas e no estado de Pando, em plena Amazônia boliviana, 15 camponeses pró-MAS foram mortos por paramilitares supostamente chefiados pelo governador da região, Leopoldo Fernández. Ele aguarda até hoje por julgamento na prisão de San Pedro, em La Paz. Foi de lá que concorreu a vice-presidência do país nas eleições de dezembro, parte da chapa do ex-prefeito de Cochabamba Manfred Reys Villa.

O massacre deu a deixa para uma intervenção militar na região e até a União de Nações Sul-americana (Unasul) ficou do lado de Evo, que, além disso, recebeu o apoio maciço da população. O que parecia impossível de controlar acabou sendo um dos fatores que levaram a vitória do referendo que ratificou a Constituição em janeiro de 2009 e permitiu a reeleição de Morales no dia 6 de dezembro.

A vitória de Evo era algo tão certo que nem a oposição parecia falar sério quando conclamava os eleitores para o segundo turno. Uma jornalista chegou a ser ameaçada de antipatriótica pelo presidente por insinuar tal possibilidade numa coletiva no dia da eleição.

No entanto, após passar um tempo no “oriente” comecei a duvidar das pesquisas que davam maioria ao MAS e toquei o barco para Cochabamba. No centro geográfico da Bolívia e entre Santa Cruz e a capital, a cidade não deixa de ser um meio termo do país. Foi só sair um pouquinho do centro do departamento para ver os muros e postes passarem do amarelo e vermelho da Convergência de Reys Villa, principal partido de oposição, para o azul do Movimento ao Socialismo. E daí pra frente o caminho foi quase que só azul.

Apesar de Santa Cruz e o resto das terras baixas estarem contra Evo e continuarem, como bem mostrou a eleição – junto com Beni e Pando estes  foram os únicos departamentos em que o MAS perdeu – a região é minoria em termo populacionais. 60% dos bolivianos vivem no altiplano, área em que o MAS tem apoio majoritário, o que torna os votos do oriente importantes, mas não imprescindíveis.

Nas eleições de dezembro, oito partidos concorreram, mas só três chegaram a Assembléia Plurinacional, tamanha a força do MAS. Para presidência, só Reys Villa rabiscou uma chance, ainda assim sendo patrolado pelos 63% dos votos de Evo. Agora o pessoal se concentra nas eleições para governador no começo de abril, tentando conseguir ao menos o controle dos departamentos.

Criado em 2002, o MAS é um saco de gatos. Mistura movimentos sociais, sindicatos e as mais diversas facções da esquerda, além dos espertalhões com timing político. O partido surgiu num momento de renascimento da esquerda boliviana, apagada desde a ditadura, e cresceu vertiginosamente, conquistando em apenas oito anos duas presidências e agora a maioria absoluta do congresso. Nada mal para uma sigla que fez 34 votos na sua primeira eleição em Santa Cruz.

A primeira coisa que a gente nota quando chega à praça central de Cochabamba são os grupinhos de pessoas conversando. Sejam dez da noite ou dez da manhã sempre tem alguém debatendo o seu ponto de vista – contra Evo, a favor de Evo, contra o Chile, a favor do Chile, contra Deus, a favor de Deus… – convertendo a praça numa espécie de ágora latina.

O centro do burburinho são dois painéis cobertos de jornais rabiscados, parte das atividades da Red Tinku, ONG-movimento-de-tudo-um-pouco. Tocada pelo professor Ramiro Saravia a Tinku – “encontro” em quéchua – nasceu em 98, mas ganhou força mesmo durante a guerra da água em 2000. Essa guerra também merece um parágrafo.

Na época a multinacional estadunidense Bechtel Corporation (uma das maiores empresas de engenharia e construção do mundo) havia ganhado uma concessão de 40 anos para prestar serviços de abastecimento de água para cidade numa licitação sem competição. O aumento da tarifa levou a população cochabambina às ruas para impedir a privatização e a morte de um garoto durante as manifestações deu início a uma série de outros protestos em todo o país culminando com a renúncia do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

A Tinku participa de manifestações, vende livros xerocados pra ganhar o dinheiro para comprar os jornais rabiscados no painel e, principalmente, organizam todos os dias debates com o pessoal que passa pela praça. Perto das eleições, o tema era, como não podia deixar de ser, as eleições.

Sentei num dos banquinhos em frente ao painel, parte da sala de aula improvisada. Do meu lado dezenas de homens escutavam atentos enquanto Ramiro tentava explicar a história política boliviana nos últimos anos. Tentava, por que a platéia fazia questão de interromper pra colocar os seus pontos de vista E isso acontece todas as noites, todos os dias!

Ele lembrava a revolução de 52, a ditadura que seguiu, os vinte anos em que os bolivianos obedeceram calados e a revolução da entrada de Evo. Morales é vista como um símbolo que vai além do seu rosto pintado por paredes e muros de todo o país. Nos comícios que participei o presidente tinha a recepção de um rock star e bastava suspirar pro povo aplaudir.

Antes de ir a La Paz resolvi dar uma passadinha no Chapare. Parte do trópico cochabambino, a região é famosa pelas belezas naturais, por não ser muito receptiva a jornalistas e pelas plantações de coca. Foi lá que Evo nasceu como sindicalista e é lá que fica também o coração do MAS.

A principal cidade é a comunidade de Vila Tunari, um amontoado de casas ao redor de uma rodovia que segue reto até a Argentina. Na falta de postes, as bandeiras azuis do partido são penduradas nas árvores. No entanto, nem todo apoio é natural. Os sindicalizados são gentilmente convidados para contribuir na campanha e aqueles que se recusam recebem sanções, como me explicou André, morador da vila. É assim também que o MAS garante comícios sempre lotados.

Além das bandeiras, a coca também está por todas as partes. No nome dos hotéis, em vasos em frente às casas, secando em lonas à beira da estrada. Não é difícil encontrar pessoas mascando folhas e o mate de coca é parte integrante do cardápio de qualquer café.

Da Vila, tomei um táxi em direção a uma base norte-americana de combate às drogas desativada. Acabei numa plantação de coca. Assim como 70% da população do país, o taxista que me levou até lá, Agapiro, é agricultor e quando não está trabalhando na rodovia ajuda a família na lavoura – de arroz, palmito e coca.

A plantação de coca da família de Agapiro tem mais ou menos o tamanho de uma quadra de vôlei, máximo permitido pelo governo. A planta da coca tem mais ou menos um metro e meio de altura, lembra uma folhagem e cresce sem precisar de cuidados. Enquanto um palmito vale dois bolivianos, 50 libras de coca passam fácil dos mil. O taxista diz que vende direto para um mercado na cidade e não faz idéia de pra onde as folha vão depois.

A coca é um dos pontos recorrentes das críticas contra Evo, chamado de narcotraficante para baixo. O presidente acumula os cargos de presidente da Bolívia e do sindicato de cocaleiros de Cochabamba. Desde 2005, quando assumiu, as plantações cresceram e a repressão diminuiu. Segundo o senador eleito Adolfo Mendoza, o que o governo prega não é a coca, mas a cocaína zero em referência ao lema do governo anterior que praticava uma política de extermínio da planta.

Cultivada há milênios na região andina, a coca é usada pra enfrentar desde a altitude até a indigestão e é parte integrante da cultura boliviana. Mendoza diz que há um estudo em andamento para saber exatamente quanto a população boliviana consome de folhas e quanto é o excedente. E é contra esse excedente que o governo pretende lutar.

De lá segui para a capital. Encravada no meio dos Andes, a cidade de La Paz dá um nó na cabeça do visitante de primeira viagem. Primeiro, pelos mais de 3.500 metros de altitude, suficientes pra lembrar a qualquer um a beleza de respirar a beira mar e fazer as células clamarem por oxigênio. Depois, pelas ruas que se cruzam em infinitas subidas e descidas.

Assim como boa parte da Bolívia, Nuestra Señora de La Paz lembra um grande mercado a céu aberto.  As ruas são lotadas de mulheres em trajes típicos vendendo de tudo um pouco. Entre as três quadras que separavam a lan house do hotel, eu podia comprar de meias, a comida, fazer uma plaquinha oferecendo meus serviços de jornalista e ainda trocar uns dólares para viagem.

Elas sustentam a casa e boa parte da economia do país que, assim como o Brasil, tem um grau muito alto de informalidade. Numa esquina do centro da cidade, conversei com a dona Cláudia Cali. Ela criou os seis filhos vendendo mantas na rua e hoje, com 67 anos, ainda mantém a mesma rotina. Acorda cedo, espalha o artesanato e, seja segunda, domingo ou feriado, passa das sete da manhã às oito da noite em busca de clientes.

Dona Cláudia também faz parte dos 63% de eleitores que votaram em Evo e que acham que o cambio estava indo bem. O cambio, “mudança” em castelhano, slogan do MAS, foi o principal ponto da campanha presidencial que podia se resumir a estar contra ou a favor de Evo, já que em termos de propostas nenhum lado parecia ter muito o que dizer.

A nova Constituição obriga a mudança da maior parte das leis bolivianas e é nelas que o povo todo está de olho. O Congresso, agora com a maioria do MAS, vai ser o responsável direto pelo “cambio” ou não do país.

Como La Paz torce pelo Evo até a medula, perto das eleições, decidi regressar a Cochabamba e aproveitar para respirar melhor também. Digamos que Bolívia em dia de eleição é Bolívia em estado de sítio. Da meia noite da sexta-feira até o fim do domingo da votação estavam proibidos beber, portar armas de fogo e até circular entre os departamentos! Mesmo na cidade, somente carros com autorização da corte eleitoral podiam trafegar e a polícia, que é só uma, manteve-se em peso nas ruas.

Na manhã da eleição, só havia policiais e pessoas de bicicletas pelas calçadas o que graças ao uniforme verde dos oficiais passava a impressão de que o exército havia tomado a cidade. Mesmo almoçar era difícil, já que todo o comércio estava fechado.

A justificativa é que assim se garante que as pessoas votem. Apesar da nova constituição tornar o voto obrigatório, as sanções por pular o pleito – bloqueio do cpf, proibição de viajar de avião e por ai vai – não chega a atingir o grosso da população que em sua maioria não tem nem conta bancária.

No fim, não havia muito o que esperar. Mesmo a oposição estava conformada. O boato mais quente era de que Reys Villa, segundo colocado nas pesquisas, iria dar no pé assim que conseguisse uma passagem com o nome dele pra Miami.

Cheguei a conversar com o candidato da convergência logo depois de ele colocar seu voto na caixinha. Reys Villa me garantiu, zombateiro, que ‘claro, estava com as malas prontas’ e depois emendou sério que tudo isso fazia parte da tática fascista de intimidação do MAS e que não arredaria pé da Bolívia de jeito nenhum.

A votação começou as 8h, mas não foi preciso ir além das 15h pra se dar a vitória a Morales. As apostas se mantinham no congresso. O MAS mantinha a confiança na maioria de dois terços, enquanto a oposição rezava pra conseguir impedir isso ao menos no Senado.

Evo, que tomou posse no fim de janeiro, não tem uma tarefa simples. Precisa calar a oposição e fazer jus aos votos da população, que, ao colocar o MAS na presidência e na maioria do congresso, lhe deu um cheque em branco pra mudar o país. Precisa também lidar com os índices que colocam a Bolívia como um dos países mais pobres e pouco desenvolvidos da América Latina.

O dia terminou na praça lotada em frente a sede do partido. O hino da Bolívia se misturava a música de campanha do MAS. Enquanto algumas pessoas choravam de felicidade, outras iam atrás de compensar a lei seca com chica, a bebida tradicional do país, e pacenã, a maior cerveja da região. O pessoal cantava, dançava e de certa forma esperava que o tal ‘cambio’ tão prometido fosse mais que uma promessa.

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