A chegada a Santa Cruz e o italiano

Não me lembro exatamente onde parei essa história, e vocês vão me desculpar por demorar tanto tempo pra voltar aqui. Disciplina e método, eis duas palavrinhas que raramente andam juntas no meu cotidiano.

O bicho pegou mesmo por causa da quantidade de detalhes que resolvi incluir na história, tornando isso um relato sem fim, mas já que promessa é dívida e não há promessas que devemos nos esforçar para cumprir mais que as que fazemos a nós mesmos, lá vamos nós. Outra e outra vez.

Acredito que nós estávamos chegando em Santa Cruz de La Sierra… A orgulhosa, pulsante, quente e rica Santa Cruz. Cheguei lá após passar vinte e duas horas no trem pensando na vida. Claro que chegou um momento que eu só sabia perguntar pra brasileira a minha frente que horas eram, mas a maior parte desse percurso foi muito agradável. Eu, a janela, a Bolívia e eu. É preciso uma boa dose de paz interior pra ficar sozinho consigo mesmo tanto tempo, e por tempo falo de momentos que vão além de uma viagem de trem, e de certa forma eu cheguei orgulhosa de mim, me sentindo forte e capaz apenas por ter cruzado aquele caminho sozinha. Qualquer vida é maior do que qualquer canção, e 44 horas desde São Paulo eu me sentia a minha própria heroína.

Mas de volta à Bolívia, que esse é o nome e o objetivo do bloguinho. Um pouco menos de duas horas antes do trem chegar a S.C os passageiros já estavam inquietos e agiam como se o apito final fosse soar em cinco minutos. Alguns acordavam com os gritos de café, suco, cunhapê… outros pareciam apenas aliviados pelo fim da viagem. Eu que tinha dormido algumas seqüências de meia hora tinha um pouco dos dois sentimentos.

Aproveitei uma das senhoras que passavam vendendo café da manhã – talvez por ser cedo, talvez por estarmos mais perto da cidade elas usavam uma avental de uniforme e evitavam vender frango, peixe e afins pela primeira vez em todo o percurso – e pedi um leite com chocolate e um pãozinho simpático que me deixou ainda mais feliz depois da primeira mordida quando percebi que além de simpático, aquilo era um pão de queijo com crise de identidade. Um pouco mais duro e desengonçado, mas um pão de queijo (cunhapê para os leigos).

Antes de sair revisei a minha pequena bagagem, que assim como nas viagens que seguiram ia sempre comigo num sistema de segurança particular que apesar de não ser a coisa mais confortável do mundo ao menos me deixava dormir tranqüila – na medida que é possível “dormir tranqüila” com ambulante vendendo coisas ônibus adentro por todo o percurso: Um pé dentro da alça de uma mochila, um pé dentro da outra e a bolsa transpassada, amarrada e no colo. Até hoje minha mãe não entende como consigo viver com uma bolsa que parece mais uma sacola e ainda por cima não tem zíper, mas eu garanto. Se você não tiver o costume de plantar bananeira com ela no pescoço, não tem problema.

Terminei o pão de queijo e, talvez eu não devesse ter esperado tanto para escrever. Me fugiu o nome de um salgado que comi na seqüência. Mas enfim, terminei o pão de queijo, o salgado supostamente com recheio e aguardei a chegada a Santa Cruz olhando pra janela,  esperando um sinal, qualquer sinal daquela cidade que se avizinhava e que devia chegar a qualquer momento depois dos quilômetros e quilômetros de florestas e vilarejos que acompanhei pelo caminho.

Assim como quem desce na rodoviária de Porto Alegre acha a cidade um lixo, que desce na estação de trem de Santa Cruz não tem uma opinião muito diferente. Os arredores são cinzas e sujos, há poucas árvores e muito caos. O suficiente pra me deixar com a sensação de ser uma pulga perdida prestar a ser engolida por aquele lugar. E eu não sou o tipo de pessoa que se sente uma pulga facilmente.

Sabe quando o coração da gente parece que encolhe, dá um aperto no peito e uma vontade de fugir combinada com o pensamento de que ‘diabos eu vim fazer aqui’? Pois era exatamente assim que eu estava me sentindo parada naquela plataforma sem saber pra que lado ir.

Mas enquanto um lado meu entrava em crise, outro agia de forma prática indo atrás do italiano que conheci láaa em Porto Quijarro, exatos 640 km atrás. Ao contrário de mim, que carregava um belo par de olheiras e uma cara que de quem acabou de almoçar um guarda-chuva sem sal, Max parecia exultante com a viagem e tinha um sorriso de orelha a orelha. Mais pra baixo que pra alto, levemente gordinho, um pouco queimado do sol do tempo que passou em Morro de São Paulo e com talvez, não sei, uns quase quarenta anos, ele tinha aquela alegria italiana que quem já encontrou com algum italiano, mesmo que ilegítimo, reconhece de longe. Como se a comida estivesse na mesa esperando a gente junto com um belo vinho e o resto do povo reunido.

Sorri tentando ser simpática e assim disfarçar a nossa impossibilidade comunicativa – até então eu não falava espanhol, ele tão pouco falava português e apesar de ter crescido na Serra o meu italiano não vai além das nonas lá perto de casa – e pedi se podia dar uma olhada naquele guia de viagem sobre a Bolívia que ele tinha me mostrado no começo da viagem e quem sabe assim arranjar um lugar pra ficar (é, eu não fazia idéia de onde iria parar e como não pretendia passar mais que uma ou duas noite ali isso também não me parecia nada grave. Fora que existem hostels por todas as partes e onde cabe um viajante, cabe mais viajante e se não couber alguém sempre sabe indicar algum lugar com uma cama sobrando).

Ele sorriu, falou alguma coisa entre ‘me espera um pouquinho e te vejo lá fora’ que me fez descer do trem, colocar as mãos nos bolsos e voltar pro estado de pulga perdida. Dois minutos depois apareceu o Max, com as suas mochilas e o seu sorriso e quando falei que queria ‘apenas dar uma olhadinha no guia’ ele já tinha feito sinal pra eu ir atrás dele e saiu caminhando pra fora da estação de trem. Falou algo sobre hotel, praça central, boas recomendações e eu repetindo que só queira ver o endereço de um hostel.

A confiança é uma prática e eu pratico bastante. Por isso – e porque ir pro centro parecia mesmo a melhor idéia – peguei um ônibus pro centro com o Max. Custou dois pesos e tudo que a gente precisou fazer foi levantar o braço – aqui não existem paradas muito menos cobradores – pra entrar no tal número 12 que seguia pra Praça indicado pelo guia.

Achando meio estranho o bus ir pro de lado que a gente tinha vindo e que até onde eu me lembrava não parecia muito com um centro, exercitei um pouco mais do meu portunhol e descobri que aquele ônibus ia sim para o centro, só que pra isso era preciso pegar ele do outro lado da rua e em outro sentido. Assim minha primeira viagem no transporte coletivo cruceno teminou 15 metros depois de ter começado.

Atravessamos a rua e dessa vez eu escolhi o ônibus seguindo o meu método de localização e não o guia do Max – perguntei pro motorista. Diga o que disserem, mas guias às vezes servem mais pra confundir que pra localizar.

Chovia em Santa Cruz e eu estava tão cansada que preferi deixar meus deveres jornalísticos de lado e apenas observar a cidade, que caótica e barulhenta fazia cada vez menos sentido.

Meia hora depois descemos no ponto indicado pelo cobrador, que disse que a praça ficava duas quadras à frente. Os prédios baixos e em geral brancos tem aquele estilo colonial espanhol, com aros redondos e janelas pequenas o que correspondia a muita coisa, menos a minha imagem de Bolívia. Mesma coisa as pessoas nas ruas. Morenas, mas não indiiiigenas. Pré-conceitos. Fui quebrando todos a marretadas conforme seguia viagem.

Chegamos a praça. De um lado a catedral que, parando pra pensar agora, nem visitei e nem sei bem porque. Será que estava sempre fechada? Do outro a prefeitura, o conselho municipal, equivalente a nossa câmera de vereadores, o teatro e algumas lojas. No meio um quadrado de concreto, cheio de banquinhos, pombos e canteiros com grama e árvores. O ponto zero da cidade, que é toda desenhada em anéis.

Que ver se encontro o mapa pra colocar aqui, mas todo o caso imaginem um quadradinho. Agora desenhem um círculo ao redor, e outro e outro e por aí vai. Depois um monte de retas cortando os círculos a partir do quadrado. Eis Santa Cruz.

Atravessamos escorregando na pista molhada enquanto o Max falava em 7, 8, 9, 10 dólares. Hotel isso, hotel aquilo, hotel aquele outro. Como o preço de x lugar parecia bacana e ué? Eu ainda não tinha escolhido nenhum? Enquanto eu pensava que tanto fazia desde que tivesse uma cama, um chuveiro quente e, por favor, se não for pedir demais, Internet. Se bem que aquela altura o chuveiro e a cama ganhavam fácil de qualquer outra facilidade.

Apesar da praça ser quadricular e o local aparentemente de fácil localização nos perdemos duas ou três vezes e escorregamos praça dentro mais duas ou três vezes também até localizar a Calle Juan – que ridiculamente saia de uma das pontas da praça – e vários hotéis um em frente ao outro. Dei uma olhada no guia do Max e escolhi dois que pareciam ter o melhor custo benefício e casualmente ficavam um de frente pro outro. Apesar do Internet bem grande escrito num hotel pensei com o bolso e fiquei no da frente, 50 bolivianos, sem café e Internet, mais barato.

Estava pronta pra assinar o chek in quando Max me olhou: tu não vai ver o quarto pra saber se gosta? E subir os quatro andares sem elevadores? Hello. Eles têm uma cama e um chuveiro. Preciso saber de mais alguma coisa? Mas ok, venci a preguiça e fui fazer o reconhecimento. Cama, ok, chuveiro, ok, Tv, não vai fazer diferença, mas ok. Posso me atirar aqui e descansar algumas horas agora?

Assim que disse que tinha aprovado o quarto Max sorriu, pegou as coisas deles e as indicações do senhor da recepção e se despediu de mim. ‘Mas tu não vai ficar em Santa Cruz também?’, perguntei com meu italiano macarrônico? ‘Não, só vim aqui para de deixar no hotel. Vou pra Samaipata ainda hoje.’ (Samaipata, senhores, é uma cidadezinha maravilhosa que fará parte do nosso relato num futuro com sorte não muito distante)

Ele tinha vindo da Bahia, passado por Brasília e viajado quatro dias de ônibus até pegar o trem da morte e não parecia nem um pouco preocupado em parar. Mais, parecia achar normal e corriqueiro fazer a gentileza de me trazer ao hotel e me deixar em segurança. Quase dei um abraço nele, mas estava cansada até pra isso, então apelei pro meu estômago e convidei ele pra almoçar, tomar café da manhã, qualquer coisa. De pseudo-italiana para italiano, se tem alguma forma de agradecimento mundialmente reconhecida entre a nossa raça ela se chama comida.

Fomo ao café Alexander, mais uma vez indicado pelo guia, e que me pareceu ainda melhor quando descobrimos que era na esquina, a uma quadrinha do hotel. Ainda num momento de deslumbramento com o câmbio, pedi um daqueles cafés frescos que custam um belo almoço no Brasil e que eu só costumo pedir quando quem paga a conta tem a mesma descendência consangüínea que eu e uma omelete rancheira.

Conversamos mais um pouco e o Max me contou da vida dele na Itália. Ele mora, bem esqueci essa parte, mas sei que trabalha como sommelier cinco meses por ano e passa o resto do tempo viajando. Ele tinha planejado uma viagem pela América do Sul, da Bolívia a

Costa Rica também de cinco meses, ou eu é que me embananei toda.

Ele nunca tinha vindo a Bolívia, mas guardava um lugar no coração pro Brasil, em especial pra Fortaleza. Eu que tinha recém passado uma semana lá no inverno e me apaixonado pelo lugar ouvi a história com gosto de prato feito a três reais – comida, sempre comida -, sotaque nordestino e baldes de gentileza.

Max me disse que tinha 23 anos na época. De Fortaleza ele foi pra Canoa Quebrada, uma praia linda e não muito longe da capitar, e disse que passou alguns dos melhores dias da vida dele lá. Sempre que alguma coisa vai mal e ele está triste, é só fechar os olhos e lembrar de Canoa Quebrada que fica tudo bem. E enquanto ele disse isso realmente fechou os olhos, colocou as mãos no coração e sorriu de um jeito que até eu consegui perceber como ele foi feliz.

Com meus 22 anos recém feito no bolso, só consegui pensar que queria ter tanta alegria guardada assim algum dia, pra usar quando faltasse fé.

Fim da chegada a Santa Cruz.

2 Comments

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2 responses to “A chegada a Santa Cruz e o italiano

  1. Amo a Bolívia e adoro Santa Cruz. Li prazerosamente tua leitura da cidade. O ponto alto da cidade para mim é a Feira de Ramada, cores, cheiros e o barulho são únicos. Faz alguns anos que não retorno à Bolívia e já sinto saudades.

  2. Rá, alguém aparece por aqui!
    Tb já estou com saudade. Na verdade, acho que passei a ter saudade de lá assim que cheguei.
    Perdi a feira! mas anda volto lá pra dar uma olhada.

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